terça-feira, 20 de janeiro de 2026

SUGESTÕES DE LEITURA | QUANDO O VATICANO CAIU, de PEDRO CATALÃO MOURA | SAÍDA DE EMERGÊNCIA


Ler Quando o Vaticano Caiu, de Pedro Catalão Moura, foi como abrir uma porta para um mundo familiar que, de repente, se revelava desconhecido e inquietante. Imaginar o Vaticano — símbolo de fé e estabilidade — ameaçado pelas forças nazis provoca uma sensação desconfortável e fascinante ao mesmo tempo. Não é apenas história alternativa; é uma viagem ao que poderia ter sido, onde cada decisão pesa como uma sentença.

O Papa Pio XII deixa de ser apenas uma figura distante e histórica. Moura humaniza-o, mostrando-o hesitante, vulnerável, dividido entre dever e medo, entre fé e sobrevivência. É impossível não se deixar absorver por esta tensão constante, onde intrigas, estratégias e dilemas morais se entrelaçam de forma quase palpável.

O que mais me prendeu foi a habilidade do autor em equilibrar o rigor histórico com o drama humano. Cada cena parece medida, mas não fria; cada diálogo, calculado, mas nunca artificial. Senti-me como se estivesse à espreita nos corredores do Vaticano, consciente do perigo iminente, testemunhando decisões que poderiam alterar o curso da história.

No fim, fiquei com uma sensação ambígua: admiração pela astúcia narrativa de Moura e inquietação perante a fragilidade da história quando posta nas mãos do acaso. Quando o Vaticano Caiu não é apenas um romance de guerra ou de intriga; é um convite a pensar sobre poder, moralidade e as escolhas que definem os homens e as instituições, mesmo em tempos sombrios.

Ler este livro foi, para mim, mais do que uma experiência de entretenimento: foi um lembrete de que a história nunca é inteiramente rígida, que as sombras do passado podem assumir formas inesperadas, e que a coragem nem sempre é grandiosa, mas muitas vezes silenciosa e solitária.

 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

LIVROS | NOITES DE SOMBRAS, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Outubro traz consigo mais do que noites frias e luas cheias: traz segredos, lendas e horrores escondidos. Neste livro, cada dia do mês abre as portas a uma nova história — uma ponte onde os sussurros nunca se calam, um espelho que devora memórias, um carvalho que sangra nomes esquecidos, um cemitério onde se perde o último sopro… e muitos outros lugares onde vivos e mortos se confundem. São 31 contos, um para cada noite de outubro, que exploram medos ancestrais, mitos rurais e assombrações que se entranham na pele. Lê-os à luz do dia… ou arrisca-te a enfrentá-los na escuridão.

 

sábado, 17 de janeiro de 2026

LIVROS | A CIDADE ESQUECIDA DE SAGRES, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Quando um poderoso tremor de terra abala o litoral de Sagres, estruturas ancestrais começam a emergir das profundezas, revelando vestígios de uma cidade submersa que não consta em nenhum mapa — mas que, ao que tudo indica, os Descobridores já conheciam. Entre símbolos astronómicos, corredores inundados e artefactos impossíveis de datar, torna-se claro que Sagres sempre escondeu um segredo que ultrapassa fronteiras… e o próprio mundo: um contacto antigo entre navegadores portugueses e inteligências vindas das estrelas.

Quatro investigadores portugueses unem-se numa corrida contra o tempo para decifrar a verdade antes que a cidade desapareça novamente no oceano. À medida que exploram câmaras cada vez mais profundas, começam a receber sinais de seres superiores que parecem guiá-los… ou testá-los.

Mas o fenómeno desperta interesse global: potências estrangeiras tentam assumir controlo da descoberta, enquanto Portugal, pressionado por alianças, decide isolar totalmente a área. Presos entre forças políticas, mistérios cósmicos e o perigo iminente do colapso da cidade, os quatro investigadores perceberão que a revelação final poderá mudar para sempre a história da humanidade.

 

 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | PORTO - CIDADE DE NÉVOA E PEDRA, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

Porto – Cidade de Névoa e Pedra

Há cidades que se mostram de imediato, outras que se revelam devagar. O Porto, não — o Porto não é nenhuma delas — habita nas entranhas da pedra, dissolve-se na bruma, paira no silêncio húmido que desce do Douro e cobre os telhados rubros como um manto de memória ancestral. É uma cidade que se sente antes de se compreender, onde o granito tem voz e o vento murmura histórias que ninguém ousou escrever.

As gentes do Porto dispensam ornamentos: dizem o que pensam e cumprem o que prometem. São austeras como as fachadas da Ribeira, mas com um coração doce. Falam com voz rouca de quem viveu muito e sorriem com dignidade, sem pedir licença para existir. Nos olhos guardam ternura, nos gestos, uma franqueza que embriaga mais que o próprio vinho do Porto. Aqui, a hospitalidade não se mostra — pratica-se.

A cidade ergue-se em socalcos e vontades, resistindo a cercos, séculos e à pressa dos tempos. Por isso é Invicta — não por vaidade, mas por justiça. Em 1832, durante o Cerco do Porto, suportou bombardeamentos e privações para defender a liberdade constitucional. Foi aqui que D. Pedro IV foi aclamado, e quis repousar simbolicamente o seu coração — um raro gesto de amor político. Séculos antes, nas margens do Douro, nasceu o berço da nação. Daqui partiram navios que rasgaram mares e mapas, e chegou a modernidade com fábricas, comboios e indústria a transformar a cidade.

Nos muros e varandas cruzaram-se fidalgos, mercadores, espadas e ideias. O Palácio da Bolsa guarda essa nobreza ativa, unida ao labor tenaz dos homens livres. Nos seus salões ecoam passos de reis, palavras de diplomatas e juras de alianças. O Porto foi palco de revoltas operárias, bastião republicano e berço estudantil. Resistiu à censura e floresceu com o 25 de Abril. O passado não descansa: molda, arde e permanece.

Também nos muros se escreveram versos. Do Porto saiu Almeida Garrett, mestre do romantismo combativo. Aqui nasceu Sophia de Mello Breyner Andresen, que ouve o mar como quem escuta o destino. Camilo Castelo Branco viveu nestas ruas as suas paixões e tormentos — ora cúmplice, ora verdugo. Ainda hoje, o Porto é berço de autores: livrarias respiram entre pedras, cafés e ideias. Cada rua é um poema por escrever. O Porto transforma a dor em literatura eterna.

À mesa, outra epopeia — íntima e heroica. Há séculos, os portuenses cederam a melhor carne às naus, ficando com as tripas. Da escassez nasceu um prato símbolo: as tripas à moda do Porto. Nada descreve melhor a alma da cidade — que transforma pouco em muito, rude em belo. A gastronomia é resistência: a francesinha desafia, o caldo verde conforta, o bacalhau, eterno companheiro, renasce sempre. Em cada tasca pulsa uma alma, um aroma que fica na roupa e no coração.

E há o vinho do Porto, que desce do Douro em tonéis e repousa nas caves de Gaia, como quem adormece para sonhar. Não se bebe só — contempla-se. Doce, escuro, profundo. Como a cidade.

Os costumes nascem de festa e fé. No São João, sagrado e profano abraçam-se, e o Porto transforma-se em espanto. Balões sobem como preces, martelinhos e alhos-porros dançam entre gargalhadas, e o rio espelha as estrelas. É a noite em que a cidade se entrega, e por um instante, todos são filhos do mesmo chão.

O clima é um personagem à parte. Não se limita a estar — impõe-se. Os verões cheiram a sal e sol, os invernos colam-se à pele. Mas é no nevoeiro que o Porto encontra o seu rosto. Esse manto espesso que desce sem ruído envolve tudo, desfoca os contornos e devolve à cidade o seu mistério. No Porto, o nevoeiro não oculta — revela. Nas manhãs brancas, ouve-se melhor o tempo antigo, e cada beco parece um segredo em suspensão.

Na bruma, o Porto adormece,

com o Douro a sussurrar,

e um coração que nunca esquece

o que sempre há-de amar.

 

À beira-rio, os barcos rabelos contam outro tempo. Os degraus que descem à água falam de homens que lavraram o Douro com mãos calosas e coragem. Do alto da ponte D. Luís I vê-se a cidade em camadas: velha, eterna, resistente. Lá em cima, os telhados desenham uma colcha de ferrugem e sonho.

Se o passado é pedra, o futuro vibra nos corredores da Universidade, nas livrarias, nos cafés onde fermentam ideias. A vida académica é pulso, juventude, reinvenção. Chegam estudantes de todo o mundo, misturam línguas, sonhos, culturas. Enchem jardins, ocupam teatros, desafiam praças. Diz-se que é nos olhos deles que o Porto reaprende a ver o futuro — com ciência, arte e ousadia feroz.

O Porto escuta, mas também se transforma. Inova sem ruído, respeitando o que foi para erguer o que há-de vir. Cresce para o mundo, sem perder o cais da sua identidade.

E entre os heróis de outrora, também o presente se projeta. O futebol — paixão visceral — reflete a alma combativa da cidade. O azul e branco do F. C. Porto não é apenas cor — é nervo, é orgulho tatuado no peito de milhares.

Hoje, turistas chegam de todas as latitudes e perdem-se encantados entre a Ribeira e a Foz, entre travessas escondidas e o brilho dos azulejos ao entardecer. Espantam-se com a força do vinho, com a alma da comida, com a forma como o passado habita cada esquina. E os próprios portugueses, olham para o Porto com respeito e um fascínio silencioso — como se ali residisse uma verdade antiga, que todos reconhecem mas poucos conseguem nomear.

No fim, o que fica é um sentimento sem nome — um Fado quieto. O Porto não é só cidade: é forma de ser, de estar, de amar em silêncio. Quem aqui nasce, nunca parte por inteiro. E quem chega, se souber escutar, encontrará sempre um lugar onde pousar o coração.

O Porto é nevoeiro e luz, dureza e abraço. É pedra, rio, vinho e gente. Passado que pulsa, presente que arde, futuro que sonha — sempre com alma.

 


quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | TRÊS QUARTOS DE UM AMOR, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Regressarei.

Estou a escrever-te, mas parece que me esqueci de como fazê-lo, porém, desejo relembrar-te de todos os nossos momentos que possam ter ficado esquecidos no fundo das tuas memórias.

Dizem que só amamos e desejamos verdadeiramente uma vez na vida.

A verdade é que quando nos conhecemos prometemos nada prometer, eramos amantes, libertos de problemas, de esperas, de sofrimento, vivíamos somente para nos amar quando nos era permitido e apesar dos quilómetros que nos separavam, estarmos em extremos opostos do continente nunca foi um problema somente mais um obstáculo para contornarmos e durante muito tempo chegou. Até que algo mudou.

Comecei a querer mais, ser tua amante já não me chegava, queria ser tua companheira, o maior amor que tiveste na vida. Fazia os possíveis para não pensar no vazio da tua ausência, sentia os teus lábios tocarem os meus, os teus braços puxando-me para ti, conseguia sentir o teu calor, o teu cheiro, os meus sentimentos acompanhavam todos os nervos do meu corpo aproximando-me cada vez mais de ti acabando por acordar sempre com o sabor agridoce dos teus beijos virtuais por não estares ao meu lado.

Descobri que a amargura nos aparece em sonhos a preto e branco.

E sonhei.

Sonhava contigo, não me lembro se falávamos, sentia quando a minha alma abandonava o meu corpo procurando-te incessantemente até te encontrar, pairando sobre ti observando-te deitado, gentilmente afastava o lençol, despindo-te cobrindo o teu corpo com o meu. Os nossos corpos nus, tocando-se, beijando-se, presos a novas sensações, amávamo-nos com a intensidade da descoberta como se fosse sempre a primeira vez, e foi ao teu lado que descobri que existem muitas formas de amar.

Pouco depois começámos com as promessas que tínhamos jurado não fazer e os nossos sentimentos ganharam contornos inesperados, conseguia ver o futuro e esse era mágico ao teu lado, já tinha tomado a minha decisão e essa eras, Tu!

Passei a acreditar que a nossa hora chegara e que o futuro seriamos, Nós!

Não faz muito tempo deixava a janela do quarto aberta apesar do frio por sentir que nos aproximava.

Sentia-me culpada quando escrevia que te amava e não to podia provar por estares longe.

A verdade é que te amarei para sempre afinal somos os melhores em tudo o que fazemos, vivo para a minha felicidade que és tu, afinal o verdadeiro amor sabe a ti.

Agora sempre que olho para o lado e te vejo, te consigo tocar e te observo a fazeres o mesmo, colando os teus lábios aos meus, sinto que tudo foi possível.

Acreditei sempre que até nos voltarmos a ver nunca nenhuma carta de amor era uma despedida e se me arrependi de muitas coisas, nunca me arrependi de ti.

Amo-te!

MBarreto Condado

 

 

 

 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

LIVROS | O PESO DO PASSADO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

Após a morte da avó, Manuel herda a casa onde ela vivera por décadas, afastada de todos. Ao mudar-se para o lugar, Manuel descobre por acaso documentos e memórias esquecidas que revelam um segredo antigo envolvendo os seus vizinhos, a família Calhau — uma verdade que a avó conhecia e que, talvez por isso, mantivera tanta distância deles.

Decidido a esclarecer o passado, Manuel tenta confrontar os Calhau, mas o que encontra é uma família fragmentada por desconfianças internas e ressentimentos antigos. Surpreendentemente, a revelação do segredo oferece aos Calhau uma oportunidade inesperada: unir-se novamente contra aquilo que consideram ser uma ameaça comum — o próprio Manuel.

Entre tensões crescentes, alianças forçadas e verdades que não podem mais permanecer ocultas, Manuel vê-se a lutar não apenas pelo direito à casa que herdou, mas também pela própria segurança, enquanto a família Calhau se reorganiza para proteger o passado a todo o custo.

 


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

SUGESTÕES DE LEITURA | A VERDADEIRA HISTÓRIA DE JOÃO E O PÉ DE FEIJÃO, de ADAM GIDWITZ | PLANETA


Quando comecei Um Espelho Sombrio dos Grimm, pensei que iria apenas revisitar o conto tradicional de João e o Pé de Feijão, com algumas diferenças curiosas. Mas rapidamente percebi que Adam Gidwitz não está interessado em repetições suaves — ele sacode-nos logo nas primeiras páginas, com um narrador que fala diretamente connosco, que avisa, provoca e até se ri da nossa expectativa de um “felizes para sempre”.

O que mais me surpreendeu foi a forma como João e Jill se transformam em companheiros de viagem. Não são heróis perfeitos, muito menos símbolos de virtude: são crianças cheias de falhas, mas também de coragem. E talvez por isso me senti tão próximo deles — porque crescem a tropeçar, a errar e a enfrentar medos que, por vezes, se parecem demasiado com os nossos.

A cada novo episódio, entre gigantes ameaçadores, vestidos invisíveis e criaturas bizarras, senti-me a subir mais alto nesse “pé de feijão” que afinal não conduz só a mundos de fantasia, mas também a reflexões muito reais: sobre confiança, amizade, escolhas difíceis e o peso de enfrentar as consequências.

O que mais gostei foi do equilíbrio entre o macabro e o humor. Há momentos sombrios, sim, até perturbadores, mas sempre intercalados com comentários inesperados que arrancam um sorriso e nos lembram que a vida — tal como os contos — é feita de contrastes.

No final, fiquei com a sensação de que este livro não é apenas uma reescrita de um clássico: é uma experiência de leitura que nos desafia a olhar para os contos de fadas de outra maneira. Não como histórias cor-de-rosa, mas como espelhos (alguns deles sombrios) daquilo que é crescer e aprender a lidar com as nossas próprias sombras.

MBarreto Condado

 

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | NATAL EM PALAVRAS, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

Era uma vez numa qualquer cidade de um qualquer país o dia de Natal, neste local era celebrado das mais diversas maneiras pelos seus habitantes, com mais ou menos família, com e sem o pinheiro enfeitado, com ou sem luzes a piscar, com ou sem presépio, com mais ou menos comida, com mais ou menos presentes, com e sem…

Era uma cidade como tantas outras onde ao final do dia as pessoas se reuniam, muitas sem entenderem o motivo para festejarem, não era o frio ou o calor que as aproximava, não eram guiadas pelas suas acções, tivessem sido melhores ou piores, mas como em todas as outras cidades de um qualquer país nesse dia era um frenesim de compras, encontrões, engarrafamentos e pior que tudo má disposição. Naquele dia as pessoas daquela cidade tentavam redimir-se de todo o mal que pudessem ter feito durante o ano irradiando uma falsa luz de felicidade e prosperidade transformando-se no que não eram pelos motivos menos correctos.

Não sabiam o que os unia naquela noite, alguns tinham a leve noção de que celebravam o nascimento de uma criança num curral e que por esse motivo deviam ser mais humildes. Outros pensavam que era um absurdo afinal no séc. XXI a criança só podia nascer num resort rodeado de amas, com um SPA para a mãe descontrair com as amigas e um campo de golfe onde o pai pudesse descansar com os amigos do stressante choro.

Seja qual fosse o motivo que levava os habitantes daquela cidade a celebrar o Natal sentiam que particularmente naquela noite deviam faze-lo com alegria rodeados daqueles que amavam relembrando com saudade as almas que já tinham partido deixando saudades.

A verdade é que naquela cidade como em tantas outras em qualquer país, existia na maioria das casas uma árvore enfeitada com luzes de várias cores a tremeluzir, inúmeros presentes, uma lareira acesa com meias penduradas, azevinho espalhado pela casa, uma mesa cheia de iguarias, memórias, brincadeiras, gargalhadas, uma história, uma fotografia e até mesmo nos raros momentos de silêncio os corações unidos aqueciam a noite.

E ao final daquele longo dia em muitas das casas daquela cidade num qualquer país do mundo, onde podia nevar ou fazer sol, onde era de dia ou de noite, onde o homem das barbas brancas e fato encarnado conduzindo um trenó puxado por renas podia ou não aparecer a única certeza que tinham é que mais um ano passara e estavam vivos e com saúde.

E se esse dia é especial porque as almas de quem já partiu nos observam e celebram connosco através dos véus que se abrem, acredito ser possível um Feliz Natal para todos numa qualquer cidade de um qualquer país.

MBarreto Condado

 


domingo, 11 de janeiro de 2026

FIGURAS HISTÓRICAS | MUMADONA DIAS — A PRIMEIRA SENHORA A METER PORTUGAL NA LINHA (SÉCULO X STYLE), de MBARRETO CONDADO


Antes de Portugal ter nome, bandeira ou sequer um jeitinho para existir, já lá estava Mumadona Dias, a mulher que olhou para o caos medieval e disse, com toda a serenidade possível: 
“Isto precisa de liderança feminina.”

Se houvesse LinkedIn no século X, o perfil dela teria: “Governante. Gestora de conflitos. Construtora ocasional de castelos. Aceito currículos.”

Mumadona era aquela pessoa que, se visse um problema, resolvia logo — não esperava por reuniões, comissões ou estudos de impacto.
A região estava a ser atacada?
Mumadona não chorou, não fugiu, não chamou reforços.
Construiu um castelo.
Assim.
Como quem monta um galinheiro, mas em grande.

E foi assim que nasceu o Castelo de Guimarães:
porque Mumadona acordou, olhou pela janela e pensou: “Isto dava aqui uma fortaleza jeitosa.”

A tripulação de monges e nobres devia viver em modo permanente de espanto.
Um dia chegavam ao pé dela e diziam:
“Senhora, estamos a precisar de segurança…”
E ela:
“Pronto, castelo.”

No dia seguinte:
“Senhora, precisávamos de organização religiosa…”
“Mosteiro. A seguir.”

E ainda sobrava tempo para respirar fundo e gerir terras como quem gere uma quinta em horário de verão.

Se Mumadona vivesse hoje, seria a típica tia que:
• organiza o Natal,
• manda áudios de 3 minutos com instruções,
• arruma a casa dos outros,
• e constrói um anexo no quintal porque “dá jeito”.

Aliás, é fácil imaginá-la no século X a dizer aos vassalos: “Rapazes, eu vou montar um mosteiro ali. Vocês tratem de não estragar nada. É só isso.”

No fundo, Mumadona Dias foi a primeira grande mulher da nossa história porque fez o que ninguém estava preparado para ver: mandou antes mesmo de Portugal existir para ser mandado.

E mandou tão bem que, mil anos depois, ainda estamos aqui a agradecer-lhe…
e a tentar dar aquele ar que sabemos o que ela fez no teste de História.

MBarreto Condado

sábado, 10 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | CRUZ DAS ALMAS, de MBARRETO CONDADO | ENTRE MONSTROS E DRAGÕES | CHIADO BOOKS

O vento uivava assustadoramente, as portadas da sala batiam com fúria contra o batente, os ramos do velho pinheiro manso raspavam irritantemente nas janelas da sala obrigando-a a levantar-se.

Afastou contrariada os lençóis, calçou os chinelos enrolando-se na manta da cama, tremia de frio a casa estava gelada parecia que o vento encontrara caminho através das frestas da porta e da chaminé determinado a ocupar um lugar que não lhe pertencia, olhou para a cama quente que abandonava caminhando às escuras pelo corredor, tinham passado somente dois meses desde que se mudara para a velha casa perdida no meio do monte.

Abriu a janela da sala puxando as portadas para as trancar quando os olhos se focaram numa fraca luz ao fundo do vale. Deixou-se ficar parada com os olhos fixos até que uma forte rajada de vento a retirou daquele torpor obrigando-a a fechar a janela. Correu para o quarto atirando-se para a cama ainda embrulhada na manta puxou as cobertas por cima da cabeça, o sono tomou-a, já não conseguia ouvir os ramos do velho pinheiro a roçar nas portadas, nem o uivo do vento que aumentava, só o silêncio.

A luz movimentando-se em círculos parou.

Baixaram os capuzes olhando na direção da velha quinta sabiam que tinham sido vistos, voltaram os olhos para a lua começando a caminhar na direcção da casa detendo-se do lado de fora do frondoso portão observando cuidadosamente o local, a um sinal começaram a dispersar-se colocando-se à volta do terreno murado desenhando estranhos símbolos enquanto entoavam uma imperceptível ladainha.

Ouviam os uivos ao longe sabiam que vinham por eles, aproximavam-se rapidamente, não queriam ali estar quando chegassem. Não conseguiram acabar de desenhar os símbolos começando a dispersar-se apagaram as lanternas desaparecendo silenciosamente na escuridão.

O chão trepidava com o barulho de patas a bater no chão molhado.

Os animais dividiram-se enquanto farejavam o local onde antes tinham estado os vultos negros certificando-se de que nenhum ficara para trás.  O Alfa entrava sozinho no jardim pelo único local que lhe era permitido, o mesmo que ainda não fora marcado, rondou a casa parando debaixo de uma janela cheirando o ar, esticou a longa mão com garras pousando-a na portada de madeira. Sabia que tinham que agir rapidamente, estava quase a amanhecer, não podia ficar ali mais tempo, regressaria nessa noite.

Acordou irritada, por duas vezes despertara com a estranha sensação de que alguém caminhava no jardim, que escutara vozes e cães, muitos cães, a correrem e a uivar.

Sentou-se no alpendre decidida a não fazer nada naquele dia, iria descontrair com um bom livro e um chá. Não sabia que horas eram quando ouviu vozes ao portão, levantou-se contrariada contornando a casa para se deparar com três idosas no lado de fora, vestidas de negro com lenços na cabeça, a tez demasiado clara para serem gentes nascidas e criadas no campo.

Bom dia!

Olhavam-na com olhos negros, frios, algo na sua fisionomia perturbava-a.

Bom dia! cumprimentou novamente não conseguia explicar, mas sentia medo.

Convide-nos a entrar, temos sede. uma das mulheres falou aumentando os seus receios, sabia que não era o portão da quinta que a protegeria se quisessem entrar mas esperava que não o fizessem.

Levantara-se um forte vento, reparou que as mulheres conservavam as mãos dentro dos bolsos, os lenços colocados tapando-lhes a cara, tinham um aspecto tão assustador que naquele momento estava satisfeita por manter o portão trancado. Começou a ouvi-las falavam ao mesmo tempo, porém ao olhar reparou que não mexiam os lábios, escutava-as dentro da sua cabeça. Começou a suar, sentiu a pele arrepiar-se, quando as viu sorrirem-lhe com ódio, maldade, os seus olhos eram negros como uma noite sem luar, os caninos tão afiados que uma delas sangrava do lábio. Temia pela sua vida.

As vozes continuavam a sobrepor-se dentro da sua cabeça: “és nossa…a tua alma pertence-lhe…vou secar-te a vida…sentir o sabor do teu sangue…derradeiramente entregar-te a Ele…”

Uma mão ossuda avançava como se não fizesse parte daquele corpo, os dedos finos entrançando-se no ferrolho sacudindo-o, torcendo-o, as dobradiças cediam. Queria fugir, mas as pernas não lhe obedeciam, um frio intenso apoderara-se dela, sentia-se estranhamente sonolenta, ainda conseguiu escutar um carro travar, vozes, gritos, mas já não viu nada.

Acordou com uma valente dor de cabeça, estava deitada na cama e já não sentia aquele estranho frio que lhe toldara os movimentos, abriu os olhos a custo lembrava-se vivamente do que acontecera, felizmente tudo não passara de um horrível pesadelo.

Abriu as janelas, o sol já se começava a pôr custava-lhe acreditar que dormira todo o dia. Tomou um banho rápido vestindo uma roupa quente precisava de caminhar um pouco para desanuviar a cabeça.

O percurso que apreciava fazer pelo monte, sempre rodeada por árvores, animais e ar puro era tudo do que necessitava naquele momento, mas tinha que se despachar se ainda queria regressar com luz, felizmente os seus pés já conheciam o caminho. Atravessou campos de cultivo, vinhas, parando antes de atravessar o cerrado pinhal algo no seu subconsciente lhe dizia que devia regressar veio-lhe à memória que fora ali que vira a estranha luz na noite anterior. Voltou-se deparando-se com vários vultos negros espalhados pelo monte tapando-lhe a passagem era assustador pensar que não os ouvira aproximarem-se, agora caminhavam na sua direcção de mãos dadas e a liderar o grupo as mesmas mulheres com quem sonhara, sorriam-lhe mostrando os afiados caninos, os olhos negros brilhando de expectativa. Começava a acreditar que não sonhara. Voltar para trás e passar por aquelas pessoas deixara de ser uma opção, voltou-lhes as costas começando a caminhar na direcção do pinhal preferia enfrentar os seus medos atravessando aquele local do que ficar à mercê dos estranhos que a seguiam, acelerou o passo evitando correr tinha medo que se o fizesse a perseguissem e sabia não ter nem a resistência nem a velocidade necessária para conseguir correr até casa sem que a apanhassem.

Penetrou na falsa protecção daquelas copas, parando momentaneamente para olhar para trás, às três mulheres tinham-se juntado todos aqueles que vira espalhados pelo monte, envergando a mesma sinistra indumentária, notou com curiosidade que tinham parado de a seguir tendo começado a gritar na sua direcção, num coro de lamentos e ódio. Estava na hora de sair dali rapidamente e regressar ao amparo da sua casa, voltou-se de repente chocando com um enorme homem que se encontrava parado atrás de si, gritou. À sua volta conseguia ver uma barreira de corpos tapando a saída, olhos amarelos brilhavam no escuro, o estranho agarrou-a pelo braço puxando-a de encontro a si enquanto os outros que se encontravam detrás dele passavam para a sua frente fazendo uma nova barreira de corpos que os separavam de quem a seguia, os olhos amarelos que vira brilhar no escuro aproximaram-se, colocando-se ao lado daqueles homens e mulheres. Poda jurar que eram lobos.

Não tenhas medo, nós protegemos-te.

Queria falar, mas as palavras não saiam. Era evidente que não ia confiar em estranhos além de que gostava pouco que a agarrassem daquela maneira.

Vem comigo, levo-te para casa. o estranho pareceu perceber a sua ansiedade largando-a, no entanto continuava com a mão esticada para que a tomasse.

Perante o absurdo do que se passava decidiu seguir o seu instinto agarrando na mão que lhe esticava com firmeza. O estranho começou a puxá-la atrás dele até saírem da escuridão do pinhal, não sabia quanto tempo ali estivera não lhe parecera muito, mas já anoitecera. Reparou que não seguiam sozinhos, com eles caminhava um grupo de homens e mulheres perscrutando atentamente no escuro, para trás ficava o grupo compacto de homens, mulheres e lobos formando uma barreira de corpos impedindo que os vultos negros passassem e os seguissem.

Aproximavam-se da estrada principal quando arranjou coragem para falar.

Vamos ter que abrandar as minhas pernas já não me obedecem.

Queres que te leve?

Ao colo? aquela conversa parecia cada vez mais surreal É evidente que não. Mas tenho mesmo que parar uns minutos.

Não podemos. sem lhe dar tempo para responder pegou-lhe ao colo.

Não resistiu, afinal aquele homem parecia ter dez vezes mais força do que ela.

Sabes que a casa onde vives está marcada? falava sem a olhar com os olhos sempre fixos no caminho em frente.

Marcada? Não percebo.

Os sugadores de almas escolheram-te.

O que está a dizer? Devia saber quem são?

Os seguidores de Oinómed, o demónio da encruzilhada. Os sugadores de almas bebem o sangue de quem marcam, queimam os seus corpos e finalmente entregam as pobres almas em troca da vida eterna.

Não queria acreditar no que ouvia, ainda devia estar a dormir.

Aqueles que me seguem são as pessoas de que fala?

Os sugadores não são pessoas, são mortos vivos.

Como me escolheram?

Deves ter visto a luz deles durante a noite enquanto procuravam uma nova vitima.

Assentiu com a cabeça então tinham sido eles a luz que vira.

Nesse caso quem são vocês?

Os únicos que te podem proteger neste momento.

Conseguem tirar-me a marca?

Não!

Olhou para baixo reparando nuns estranhos sinais no chão que nunca vira de todas as vezes que ali passara.

O que é isto? apontava para o chão.  

Cruzes, cada uma representa uma alma que se salvou, representa um de nós.

Disse que me podem proteger, como?

Após seres marcada só te salvas se te tornares uma de nós.

Estava definitivamente a viver numa realidade paralela ou pior continuava a dormir, se assim fosse já só queria acordar daquele pesadelo. Fechou os olhos com força voltando a abri-los para constatar que ainda ali estava e que tudo aquilo era real.

E quem são vocês?

Criaturas da noite.

Vampiros? tremeu ao pensar que naquele momento escapara de uns sugadores para cair nos braços de outros.

O estranho soltou uma gargalha. Ainda bem que conseguia achar graça ao pior dia da sua vida.

Não. Nós vivemos.

Aproximavam-se da estrada. Pararam, olhavam para ela e posteriormente para a encruzilhada dos quatro caminhos, virou o olhar no momento de ver aparecer no meio do cruzamento uma bola de fogo e dela sair um enorme vulto.

Olhou para o estranho que a transportava agarrando-se a ele com força.

Não quero morrer.

Não queremos que morras nem deixaremos que tal aconteça se for essa a tua decisão.

O que devo fazer?

Juntar-te a nós. Viverás o dobro dos anos protegendo todos os que necessitem da tua ajuda contra as trevas, mas para que isso aconteça necessito que me confirmes que é esse realmente o teu desejo.

Olhou na direcção do vulto negro, também este parecia aguardar a sua resposta.

Sim! Quero juntar-me a vocês.

Os olhos daquele estranho e de todos que ali se encontravam ficaram amarelos, este afastou-lhe delicadamente a camisola que lhe cobria o ombro esquerdo mordendo-a, Oinómed desaparecia numa chama intensa, as marcas desenhadas nos muros de sua casa desapareciam, os homens, mulheres e lobos que tinham ficado para trás juntavam-se-lhes e perante o seu olhar atónito os lobos transformavam-se perante os seus olhos em fortes homens e mulheres a quem Oinómed não conseguira roubar a alma.

Enquanto debaixo dos seus pés no local onde fora mordida aparecia uma nova cruz, a sua, uma confirmação de mais uma alma que escapara às trevas,

Bem-vinda. o estranho sorria-lhe pousando-a gentilmente.

Quando o voltou a encarar também os seus olhos brilhavam amarelos como a Lua que despontava no céu naquela noite.

MBarreto Condado

 

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | SEXTO SENTIDO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Dizem que vivemos várias vidas e que nunca nos lembramos delas para que possamos de alguma forma corrigir o que deixámos inacabado. Mas como será possível garantir que desta vez agiremos de acordo com os nossos desígnios? Que desta feita será a última vez que percorreremos o nosso atribulado percurso sem falhar, fazendo desta a nossa última passagem?

Será que as pessoas que nos acompanham agora foram as mesmas que já o fizeram nas nossas vidas passadas?

Gosto de pensar que das vezes que o meu sexto sentido me disse que de alguma forma já as conhecia, que não me tivesse enganado.

Será esta a minha última passagem?

A minha intuição diz-me que não.

Deito-me e fecho os olhos, quero viajar, quero que a minha memória me leve para lá do véu das minhas lembranças, que me permita atravessar a névoa dos tempos e independentemente de quem possa ter sido ter sempre a certeza que estou aqui novamente para acabar o que deixei inacabado.

“Sigo por um estreito e escuro caminho, estico as mãos, mas não toco em nada. Tudo à minha volta é vazio, consigo senti-lo.

Fecho os olhos com maior intensidade quero deixar-me levar para lá desse nevoeiro. Quero que se abra para mim e me mostre o que se esconde na infinitude dessas Eras passadas.

Sinto que me vai ser dada a oportunidade de ver o que tanto procuro.

Sinto-me banhada por uma forte e quente luz, que me embala no meu caminho. Ofuscada por um calor tão humano e no entanto tão ausente, sinto que não estou só.

Tenho a apurada percepção de que alguém me acompanha, inundada por um amor que não consigo abraçar. Deixo-me levar. Sei que ali estou protegida, cheguei a uma casa há muito abandonada.

Abro os meus sentidos. A minha acutilante perspicácia que sempre me deu conselhos certeiros. Sinto-me segura, porém não sei onde.

Fisicamente continuo deitada no meu sofá de olhos bem cerrados.

Pressinto o que vai acontecer mesmo antes que aconteça. Continuo rodeada daquela luz quente e protetora.  Sinto que estou perto muito perto de saber quem fui. Deixo-me guiar.

E quando as cerradas névoas se abrem um pouco é-me permitido ver que fui várias pessoas, fui vilã, vivi em reclusão afastada de olhares curiosos, ajudei com o gado, cultivei terras, fui neta, filha, irmã, mãe. Fui amante, esposa. Morri, vi morrer, matei. Fui cobiçada, cobicei. Fui rica, fui pobre. Ajudei, maltratei.

Vivi várias vidas e morri outras tantas.

Vi tudo em flashes.

E antes que me pudesse aperceber fui novamente conduzida para o meio daquela névoa que me afastava da luz quente que de mim se despedia com a promessa de um até já.”

E sempre guiada pelo meu instinto quase sempre infalível e certeiro, abri a medo os olhos. Continuava deitada no meu sofá.

E do fundo das minhas memórias soube que a minha passagem ainda não estava terminada, uma voz persistia na minha cabeça dizendo-me para confiar no meu sexto sentido pois seria ele a levar-me de volta a casa, ao calor das suas almas e à ausência de incertezas.

Sei que elas me esperam.

E quando acabar esta minha nova e possivelmente não derradeira passagem, reencontrarei quem tanto me ama e protege, no sexto véu dos sentidos.

MBarreto Condado

 

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

LIVROS | HISTÓRIA DE FAMÍLIA, FRANCISCO CARVALHO DE MAGALHÃES, de MBARRETO CONDADO

Este livro surgiu inicialmente como um desafio da Manuela, uma amiga de infância. Tudo aconteceu no nosso último jantar de antigas colegas, em Dezembro de 2019, o que começou como um retorcido estratagema para surpreender o pai pelo seu 80º aniversário, rapidamente ganhou pernas para andar.

Consciente da responsabilidade de tamanha empreitada, comecei no início de 2020 a ler as notas que me forneceram e a esboçar o livro, colocando-lhe o meu cunho pessoal. Durante meses, entre telefonemas e visitas, limitadas a um acenar à distância através da porta, por termos ficado limitados de contacto, fui trocando impressões, ideias e fotografias com o Engº Magalhães e a sua mulher Maria Orízia.

A imensa energia e o trato agradável como sempre me receberam, foi fundamental para a evolução destas páginas.

E, foi com um sentimento de orgulho, que finalmente lhe comuniquei que terminara o livro.

Não posso contudo, deixar de lembrar que durante todo o período que demorou a criação desta obra, esta família foi uma vez mais sujeita às mais difíceis provações, as mesmas que, com a força que os caracteriza, rapidamente superou.

Da minha parte, espero ter estado à altura do que me pediram, com a certeza de que depois de os ter conhecido na sua intimidade, fiquei consideravelmente mais rica e crente de que ainda existem famílias ideais.

Obrigada pela confiança, pela energia, pela alegria que vos caracteriza.

Se aprendi algo com esta experiência, foi que todos temos um caminho a percorrer, com ou sem estrela guia, está nas nossas mãos tomarmos as rédeas do nosso destino. E, se, nem sempre nos parecer fácil, é nas maiores adversidades que encontramos o melhor de nós.

Não posso deixar de acentuar aqui, que a força e o amor que une este casal é a prova viva de que existem casais destinados a um “Era uma vez...” e “Foram felizes para sempre!”.

 

 

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

LIVROS | CRÓNICAS DE NUNES, UM ASNO, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

Nos confins da alma humana existe um lugar curioso, onde o ridículo e a vaidade se encontram e ensaiam uma valsa desajeitada. É nesse pântano existencial que nasce o nosso protagonista — um homem cuja maior proeza é ser um asno presunçoso. Um verdadeiro mestre na arte de parecer sábio sem o ser, de falar alto e dizer pouco, de julgar o mundo do alto da sua imaginária torre de marfim.

Estas crónicas não são um exercício de crueldade, mas antes um espelho sarcástico onde, com alguma sorte (e talvez um pouco de coragem), o leitor poderá vislumbrar reflexos das suas próprias asneiras.

Entre feitos e desfeitos, discursos pomposos e decisões desastrosas, o protagonista revela não só o seu próprio ridículo, mas também o da humanidade que, mais vezes do que gostaríamos de admitir, partilha da sua vã presunção.

Prepare-se, caro leitor, para acompanhar as aventuras e desventuras de alguém que, na ânsia de parecer mais do que é, acaba por ser muito menos do que poderia ser.

Que estas páginas sirvam, acima de tudo, para boas gargalhadas.

E sendo esta uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, factos ou situações reais será, naturalmente, pura coincidência.

 


terça-feira, 6 de janeiro de 2026

CONTOS | OS REIS MAGOS DO SÉCULO XXI, de MBARRETO CONDADO


Gaspar, Baltasar e Melchior combinaram pelo WhatsApp ir buscar o tal “rei dos reis”. O problema começou quando o GPS os enviou para o “Belém” errado e eles acabaram em Lisboa, a tirar selfies com o Mosteiro dos Jerónimos.

Após algum debate:

- Isto parece-te uma manjedoura?

Acertaram o destino, Gaspar trouxe ouro, mas era uma pulseira falsa comprada na Black Friday. Baltasar, sempre atento às tendências, trouxe mirra aromática, versão difusor elétrico. Melchior, minimalista, apareceu com um voucher do Starbucks: - É prático, e podem usar quando quiserem.

Ao chegarem, Maria e José sorriram agradecidos.

- Obrigado…mas preferíamos fraldas.

 

MBarreto Condado

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | OBSESSÕES, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

 

És meu!

Chamaste-me impertinente, exagerada, compulsiva.

Chegaste a dizer-me que me tornara obsessiva.

Devo dizer-te que estás enganado.

Não é obsessão,

Saber que me pertences.

Não é obsessão,

Querer-te sempre ao meu lado.

Não é obsessão,

Desejar o teu olhar só para mim.

Não é obsessão,

Querer a tua atenção.

Não é obsessão,

Querer sentir o teu calor,

Não é obsessão,

Saber que os teus beijos são meus.

Não é obsessão,

Saborear-te mesmo quando não estás.

Não é obsessão,

Sonhar acordada em estar nos teus braços.

Não é obsessão,

Sentir o teu toque estando distante.

Não é obsessão,

Cheirar o teu perfume nos locais por onde passo.

Não é obsessão,

Ouvir a tua voz no fundo da minha mente.

Não é obsessão,

Querer-te para sempre.

A dor que sinto em mim quando não estás por perto é a lembrança de um vazio que me atormenta.

Quero ter-te ao meu lado, respirar-te,

Deixar-me enlevar no som das tuas palavras

És meu!

Tudo à minha volta me leva permanentemente de volta a ti.

À casa que conheço e amo.

És meu!

Tenho que te ter.

Chamaste-me louca.

Podia garantir-te que isso não é verdade

Pois o que sinto hoje, sempre, é desejo, enlevo, necessidade.

Se obsessão é querer-te assim, sem limites ou vontade própria.

Peço-te que me deixes perder nos meus devaneios de te ter.

Então talvez venha a concordar contigo, talvez esteja doida por te amar com esta intensidade.

Não sei contudo se será obsessão,

mas…

És meu!


MBarreto Condado