sábado, 10 de janeiro de 2026

COLECTÂNEAS | CRUZ DAS ALMAS, de MBARRETO CONDADO | ENTRE MONSTROS E DRAGÕES | CHIADO BOOKS

O vento uivava assustadoramente, as portadas da sala batiam com fúria contra o batente, os ramos do velho pinheiro manso raspavam irritantemente nas janelas da sala obrigando-a a levantar-se.

Afastou contrariada os lençóis, calçou os chinelos enrolando-se na manta da cama, tremia de frio a casa estava gelada parecia que o vento encontrara caminho através das frestas da porta e da chaminé determinado a ocupar um lugar que não lhe pertencia, olhou para a cama quente que abandonava caminhando às escuras pelo corredor, tinham passado somente dois meses desde que se mudara para a velha casa perdida no meio do monte.

Abriu a janela da sala puxando as portadas para as trancar quando os olhos se focaram numa fraca luz ao fundo do vale. Deixou-se ficar parada com os olhos fixos até que uma forte rajada de vento a retirou daquele torpor obrigando-a a fechar a janela. Correu para o quarto atirando-se para a cama ainda embrulhada na manta puxou as cobertas por cima da cabeça, o sono tomou-a, já não conseguia ouvir os ramos do velho pinheiro a roçar nas portadas, nem o uivo do vento que aumentava, só o silêncio.

A luz movimentando-se em círculos parou.

Baixaram os capuzes olhando na direção da velha quinta sabiam que tinham sido vistos, voltaram os olhos para a lua começando a caminhar na direcção da casa detendo-se do lado de fora do frondoso portão observando cuidadosamente o local, a um sinal começaram a dispersar-se colocando-se à volta do terreno murado desenhando estranhos símbolos enquanto entoavam uma imperceptível ladainha.

Ouviam os uivos ao longe sabiam que vinham por eles, aproximavam-se rapidamente, não queriam ali estar quando chegassem. Não conseguiram acabar de desenhar os símbolos começando a dispersar-se apagaram as lanternas desaparecendo silenciosamente na escuridão.

O chão trepidava com o barulho de patas a bater no chão molhado.

Os animais dividiram-se enquanto farejavam o local onde antes tinham estado os vultos negros certificando-se de que nenhum ficara para trás.  O Alfa entrava sozinho no jardim pelo único local que lhe era permitido, o mesmo que ainda não fora marcado, rondou a casa parando debaixo de uma janela cheirando o ar, esticou a longa mão com garras pousando-a na portada de madeira. Sabia que tinham que agir rapidamente, estava quase a amanhecer, não podia ficar ali mais tempo, regressaria nessa noite.

Acordou irritada, por duas vezes despertara com a estranha sensação de que alguém caminhava no jardim, que escutara vozes e cães, muitos cães, a correrem e a uivar.

Sentou-se no alpendre decidida a não fazer nada naquele dia, iria descontrair com um bom livro e um chá. Não sabia que horas eram quando ouviu vozes ao portão, levantou-se contrariada contornando a casa para se deparar com três idosas no lado de fora, vestidas de negro com lenços na cabeça, a tez demasiado clara para serem gentes nascidas e criadas no campo.

Bom dia!

Olhavam-na com olhos negros, frios, algo na sua fisionomia perturbava-a.

Bom dia! cumprimentou novamente não conseguia explicar, mas sentia medo.

Convide-nos a entrar, temos sede. uma das mulheres falou aumentando os seus receios, sabia que não era o portão da quinta que a protegeria se quisessem entrar mas esperava que não o fizessem.

Levantara-se um forte vento, reparou que as mulheres conservavam as mãos dentro dos bolsos, os lenços colocados tapando-lhes a cara, tinham um aspecto tão assustador que naquele momento estava satisfeita por manter o portão trancado. Começou a ouvi-las falavam ao mesmo tempo, porém ao olhar reparou que não mexiam os lábios, escutava-as dentro da sua cabeça. Começou a suar, sentiu a pele arrepiar-se, quando as viu sorrirem-lhe com ódio, maldade, os seus olhos eram negros como uma noite sem luar, os caninos tão afiados que uma delas sangrava do lábio. Temia pela sua vida.

As vozes continuavam a sobrepor-se dentro da sua cabeça: “és nossa…a tua alma pertence-lhe…vou secar-te a vida…sentir o sabor do teu sangue…derradeiramente entregar-te a Ele…”

Uma mão ossuda avançava como se não fizesse parte daquele corpo, os dedos finos entrançando-se no ferrolho sacudindo-o, torcendo-o, as dobradiças cediam. Queria fugir, mas as pernas não lhe obedeciam, um frio intenso apoderara-se dela, sentia-se estranhamente sonolenta, ainda conseguiu escutar um carro travar, vozes, gritos, mas já não viu nada.

Acordou com uma valente dor de cabeça, estava deitada na cama e já não sentia aquele estranho frio que lhe toldara os movimentos, abriu os olhos a custo lembrava-se vivamente do que acontecera, felizmente tudo não passara de um horrível pesadelo.

Abriu as janelas, o sol já se começava a pôr custava-lhe acreditar que dormira todo o dia. Tomou um banho rápido vestindo uma roupa quente precisava de caminhar um pouco para desanuviar a cabeça.

O percurso que apreciava fazer pelo monte, sempre rodeada por árvores, animais e ar puro era tudo do que necessitava naquele momento, mas tinha que se despachar se ainda queria regressar com luz, felizmente os seus pés já conheciam o caminho. Atravessou campos de cultivo, vinhas, parando antes de atravessar o cerrado pinhal algo no seu subconsciente lhe dizia que devia regressar veio-lhe à memória que fora ali que vira a estranha luz na noite anterior. Voltou-se deparando-se com vários vultos negros espalhados pelo monte tapando-lhe a passagem era assustador pensar que não os ouvira aproximarem-se, agora caminhavam na sua direcção de mãos dadas e a liderar o grupo as mesmas mulheres com quem sonhara, sorriam-lhe mostrando os afiados caninos, os olhos negros brilhando de expectativa. Começava a acreditar que não sonhara. Voltar para trás e passar por aquelas pessoas deixara de ser uma opção, voltou-lhes as costas começando a caminhar na direcção do pinhal preferia enfrentar os seus medos atravessando aquele local do que ficar à mercê dos estranhos que a seguiam, acelerou o passo evitando correr tinha medo que se o fizesse a perseguissem e sabia não ter nem a resistência nem a velocidade necessária para conseguir correr até casa sem que a apanhassem.

Penetrou na falsa protecção daquelas copas, parando momentaneamente para olhar para trás, às três mulheres tinham-se juntado todos aqueles que vira espalhados pelo monte, envergando a mesma sinistra indumentária, notou com curiosidade que tinham parado de a seguir tendo começado a gritar na sua direcção, num coro de lamentos e ódio. Estava na hora de sair dali rapidamente e regressar ao amparo da sua casa, voltou-se de repente chocando com um enorme homem que se encontrava parado atrás de si, gritou. À sua volta conseguia ver uma barreira de corpos tapando a saída, olhos amarelos brilhavam no escuro, o estranho agarrou-a pelo braço puxando-a de encontro a si enquanto os outros que se encontravam detrás dele passavam para a sua frente fazendo uma nova barreira de corpos que os separavam de quem a seguia, os olhos amarelos que vira brilhar no escuro aproximaram-se, colocando-se ao lado daqueles homens e mulheres. Poda jurar que eram lobos.

Não tenhas medo, nós protegemos-te.

Queria falar, mas as palavras não saiam. Era evidente que não ia confiar em estranhos além de que gostava pouco que a agarrassem daquela maneira.

Vem comigo, levo-te para casa. o estranho pareceu perceber a sua ansiedade largando-a, no entanto continuava com a mão esticada para que a tomasse.

Perante o absurdo do que se passava decidiu seguir o seu instinto agarrando na mão que lhe esticava com firmeza. O estranho começou a puxá-la atrás dele até saírem da escuridão do pinhal, não sabia quanto tempo ali estivera não lhe parecera muito, mas já anoitecera. Reparou que não seguiam sozinhos, com eles caminhava um grupo de homens e mulheres perscrutando atentamente no escuro, para trás ficava o grupo compacto de homens, mulheres e lobos formando uma barreira de corpos impedindo que os vultos negros passassem e os seguissem.

Aproximavam-se da estrada principal quando arranjou coragem para falar.

Vamos ter que abrandar as minhas pernas já não me obedecem.

Queres que te leve?

Ao colo? aquela conversa parecia cada vez mais surreal É evidente que não. Mas tenho mesmo que parar uns minutos.

Não podemos. sem lhe dar tempo para responder pegou-lhe ao colo.

Não resistiu, afinal aquele homem parecia ter dez vezes mais força do que ela.

Sabes que a casa onde vives está marcada? falava sem a olhar com os olhos sempre fixos no caminho em frente.

Marcada? Não percebo.

Os sugadores de almas escolheram-te.

O que está a dizer? Devia saber quem são?

Os seguidores de Oinómed, o demónio da encruzilhada. Os sugadores de almas bebem o sangue de quem marcam, queimam os seus corpos e finalmente entregam as pobres almas em troca da vida eterna.

Não queria acreditar no que ouvia, ainda devia estar a dormir.

Aqueles que me seguem são as pessoas de que fala?

Os sugadores não são pessoas, são mortos vivos.

Como me escolheram?

Deves ter visto a luz deles durante a noite enquanto procuravam uma nova vitima.

Assentiu com a cabeça então tinham sido eles a luz que vira.

Nesse caso quem são vocês?

Os únicos que te podem proteger neste momento.

Conseguem tirar-me a marca?

Não!

Olhou para baixo reparando nuns estranhos sinais no chão que nunca vira de todas as vezes que ali passara.

O que é isto? apontava para o chão.  

Cruzes, cada uma representa uma alma que se salvou, representa um de nós.

Disse que me podem proteger, como?

Após seres marcada só te salvas se te tornares uma de nós.

Estava definitivamente a viver numa realidade paralela ou pior continuava a dormir, se assim fosse já só queria acordar daquele pesadelo. Fechou os olhos com força voltando a abri-los para constatar que ainda ali estava e que tudo aquilo era real.

E quem são vocês?

Criaturas da noite.

Vampiros? tremeu ao pensar que naquele momento escapara de uns sugadores para cair nos braços de outros.

O estranho soltou uma gargalha. Ainda bem que conseguia achar graça ao pior dia da sua vida.

Não. Nós vivemos.

Aproximavam-se da estrada. Pararam, olhavam para ela e posteriormente para a encruzilhada dos quatro caminhos, virou o olhar no momento de ver aparecer no meio do cruzamento uma bola de fogo e dela sair um enorme vulto.

Olhou para o estranho que a transportava agarrando-se a ele com força.

Não quero morrer.

Não queremos que morras nem deixaremos que tal aconteça se for essa a tua decisão.

O que devo fazer?

Juntar-te a nós. Viverás o dobro dos anos protegendo todos os que necessitem da tua ajuda contra as trevas, mas para que isso aconteça necessito que me confirmes que é esse realmente o teu desejo.

Olhou na direcção do vulto negro, também este parecia aguardar a sua resposta.

Sim! Quero juntar-me a vocês.

Os olhos daquele estranho e de todos que ali se encontravam ficaram amarelos, este afastou-lhe delicadamente a camisola que lhe cobria o ombro esquerdo mordendo-a, Oinómed desaparecia numa chama intensa, as marcas desenhadas nos muros de sua casa desapareciam, os homens, mulheres e lobos que tinham ficado para trás juntavam-se-lhes e perante o seu olhar atónito os lobos transformavam-se perante os seus olhos em fortes homens e mulheres a quem Oinómed não conseguira roubar a alma.

Enquanto debaixo dos seus pés no local onde fora mordida aparecia uma nova cruz, a sua, uma confirmação de mais uma alma que escapara às trevas,

Bem-vinda. o estranho sorria-lhe pousando-a gentilmente.

Quando o voltou a encarar também os seus olhos brilhavam amarelos como a Lua que despontava no céu naquela noite.

MBarreto Condado

 

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