Chegámos ao último dia do ano, esse momento glorioso em que todos fingimos ter a vida organizada, quando na verdade estamos há três dias a viver de restos do frigorífico e de esperança. A mesa está pronta, a sala arrumada (ou empurrámos tudo para dentro de um quarto e fechámos a porta, o que também conta) e o champanhe está no frigorífico desde Outubro “não vá esgotar”.
O
ambiente é festivo: o glitter aparece em sítios misteriosos, a música está
demasiado alta e há sempre aquele parente que insiste em testar a acústica da
casa com gargalhadas que se ouvem no vizinho do 3.º andar. A tia aparece com um
colar de luzes a piscar, o primo chega com um casaco que parece uma bola de
espelhos, e o amigo de sempre entra a anunciar que este ano não vai exagerar.
Duas horas depois, já está a fazer discursos emocionados ao sofá.
Começam
as grandes reflexões do ano:
—
“Este ano é que vou correr todas as manhãs!”
—
“Sim, claro.”
—
“E vou comer melhor!”
—
“Fantástico, começa em Março.”
—
“E vou ser uma nova pessoa!”
—
“Boa sorte, guarda o recibo para trocas.”
Depois
vem o drama das 12 passas. Mastigamos como quem tenta sobreviver a um desafio
de resistência enquanto pedimos desejos que já pedimos nos últimos três anos. E
quando o relógio está prestes a bater as doze badaladas, há sempre alguém que
grita “AGORA!” cinco segundos antes, só para sabotar o sincronismo universal.
Mas
no meio da confusão — dos brindes tortos, das fotografias desfocadas e dos
abraços que quase nos partem as costas — há um instante doce. Um instante em
que percebemos que, apesar de tudo, fizemos o melhor que conseguimos. E que o
que correu mal deu-nos histórias, e o que correu bem deu-nos força.
Por
isso, aqui vai o desejo oficial e certificado:
Que
2026 nos traga saúde, alegria, dinheiro suficiente para não termos de fugir do
supermercado, coragem para nos rirmos de nós próprios e magia suficiente para
nos surpreender quando menos esperamos.
Que
venha um ano leve, luminoso e cheio de momentos tão bons que até o telemóvel
diz “memória cheia”.
Feliz
Ano Novo! Que 2026 seja épico — ou pelo menos suficientemente divertido para
nos esquecermos dos dramas.
MBarreto Condado
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