quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

CONTOS | OPERAÇÃO "ADEUS 2025", de MBARRETO CONDADO

Chegámos ao último dia do ano, esse momento glorioso em que todos fingimos ter a vida organizada, quando na verdade estamos há três dias a viver de restos do frigorífico e de esperança. A mesa está pronta, a sala arrumada (ou empurrámos tudo para dentro de um quarto e fechámos a porta, o que também conta) e o champanhe está no frigorífico desde Outubro “não vá esgotar”.

O ambiente é festivo: o glitter aparece em sítios misteriosos, a música está demasiado alta e há sempre aquele parente que insiste em testar a acústica da casa com gargalhadas que se ouvem no vizinho do 3.º andar. A tia aparece com um colar de luzes a piscar, o primo chega com um casaco que parece uma bola de espelhos, e o amigo de sempre entra a anunciar que este ano não vai exagerar. Duas horas depois, já está a fazer discursos emocionados ao sofá.

Começam as grandes reflexões do ano:

— “Este ano é que vou correr todas as manhãs!”

— “Sim, claro.”

— “E vou comer melhor!”

— “Fantástico, começa em Março.”

— “E vou ser uma nova pessoa!”

— “Boa sorte, guarda o recibo para trocas.”

Depois vem o drama das 12 passas. Mastigamos como quem tenta sobreviver a um desafio de resistência enquanto pedimos desejos que já pedimos nos últimos três anos. E quando o relógio está prestes a bater as doze badaladas, há sempre alguém que grita “AGORA!” cinco segundos antes, só para sabotar o sincronismo universal.

Mas no meio da confusão — dos brindes tortos, das fotografias desfocadas e dos abraços que quase nos partem as costas — há um instante doce. Um instante em que percebemos que, apesar de tudo, fizemos o melhor que conseguimos. E que o que correu mal deu-nos histórias, e o que correu bem deu-nos força.

Por isso, aqui vai o desejo oficial e certificado:

Que 2026 nos traga saúde, alegria, dinheiro suficiente para não termos de fugir do supermercado, coragem para nos rirmos de nós próprios e magia suficiente para nos surpreender quando menos esperamos.

Que venha um ano leve, luminoso e cheio de momentos tão bons que até o telemóvel diz “memória cheia”.

Feliz Ano Novo! Que 2026 seja épico — ou pelo menos suficientemente divertido para nos esquecermos dos dramas.

MBarreto Condado

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

SUGESTÕES DE LEITURA | GUERREIRO DAS TREVAS, de SHERRILYN KENYON | CHÁ DAS CINCO


Nas páginas de Guerreiro das Trevas, Sherrilyn Kenyon recorda-nos que até os monstros guardam cicatrizes que falam de humanidade. Urian não é o herói imaculado das lendas; é uma criatura moldada pela dor, forjada na traição e condenada à solidão de séculos. Vive suspenso entre aquilo que o destino escreveu para ele — a destruição — e a sua ânsia secreta de redenção.

O amor por Phoebe surge como uma brecha de luz no meio da sua noite eterna. Não um amor fácil, mas uma força que o impele a descer ao Hades e a enfrentar não apenas deuses e inimigos, mas também os fantasmas mais íntimos da sua alma. Kenyon transforma essa descida num verdadeiro rito de passagem, onde cada batalha externa espelha uma guerra interior.

Neste primeiro volume, o leitor é conduzido a um território de sombras, sangue e desejo, mas também de vulnerabilidade. Urian conquista-nos não só pela imponência do guerreiro, mas pela humanidade inesperada do homem que ousa amar quando tudo o empurra para o ódio.

E é precisamente aqui que reside a essência deste livro: ele não fecha um ciclo, antes abre instintos, presságios e expectativas para o que está por vir. Kenyon prepara o terreno, desperta no leitor a sede de continuar, como se cada página fosse um degrau que conduz a um abismo maior — ou, talvez, a uma redenção mais profunda.

Guerreiro das Trevas não é apenas fantasia urbana; é uma reflexão sobre identidade, perda e coragem. Um prelúdio sombrio que anuncia, sem máscaras, que o caminho seguinte será ainda mais denso, mais perigoso — e irresistivelmente humano.

MBarreto Condado

 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

COLECTÂNEAS | SPRINT PARA A MORTE, de MBARRETO CONDADO | A AUDIÊNCIA ESCREVEU UM CRIME

 

Atravessava o parque como se fosse perseguido pelo próprio Diabo, a camisa colada ao corpo, as mãos sujas de sangue a prova de um crime que não cometera, voltar para trás não era opção era assumir uma culpa que não era sua. Ouvia as sirenes da polícia, aproximavam-se, os gritos aqueciam a fria noite mas gelavam-no por dentro. Aproveitava a escuridão para se afastar daquele nefasto local, não sabia para onde ia, só não podia parar. Já vira demasiadas séries policiais para saber que não devia tocar num corpo caído, mas quando percebera que ainda respirava não hesitara. Segurara-a nos seus braços. Agora enquanto fugia através do parque sentia a mente dormente, o corpo ameaçava ceder não podia voltar para trás ninguém acreditaria na sua palavra. Chegara ao portão. Foi quando a viu do outro lado da estrada. A mesma mulher que tivera nos seus braços. Afinal não morrera. Então de quem era aquele sangue que lhe escorria das mãos? Sentia a camisa colada ao corpo, era o seu sangue que a prendia.


domingo, 28 de dezembro de 2025

FIGURAS HISTÓRICAS | D. AFONSO HENRIQUES — O PRIMEIRO REI E O PRIMEIRO A DIZER “DESENRASCA-SE”, de MBARRETO CONDADO


D. Afonso Henriques foi aquele tipo de pessoa que acorda um dia, olha à volta e pensa: “Isto dava um país.”

E pronto, fez-se Portugal — sem planos a cinco anos, sem powerpoints, sem reuniões com ata. Apenas muita vontade, uma espada e um talento natural para convencer pessoas cansadas de trabalhar no campo a irem marchar atrás dele.

Se vivesse hoje, Afonso seria aquele amigo hiperactivo que aparece à porta a um sábado de manhã e diz:

“Anda daí, vamos conquistar qualquer coisa.”

E tu, ainda de pijama:

“Mas… o quê?”

“Logo se vê!”

Foi pioneiro no multitasking medieval: discutia com a mãe, fundava cidades, batia recordes de quilómetros a cavalo (sem cinto de segurança), e ainda arranjava tempo para inventar fronteiras. Na prática, D. Afonso foi o primeiro português a oficializar a arte nacional do desenrascanço premium.

Imagino-o no campo de batalha, cheio de autoestima, a apontar para o inimigo como quem aponta para a fila errada no supermercado:

“Aquilo ali é nosso.”

E a malta atrás dele, já conformada:

“Pronto… se o senhor diz, vamos lá.”

No fundo, D. Afonso Henriques provou duas verdades eternas:

  1. Os portugueses fazem milagres com pouco.
  2. Nunca subestimes alguém que se levanta cedo com ideias.

E assim nasceu Portugal: com coragem, muita teimosia e a convicção firme de que tudo se resolve com um bom impulso e uma frase de motivação meio improvisada.

E resolveu-se.

E ainda bem — graças a ele, hoje estamos aqui a rir da aventura.

MBarreto Condado 

sábado, 27 de dezembro de 2025

LIVROS | LUA DE SANGUE, IRMANDADE DA CRUZ, de MBARRETO CONDADO

 

O Colégio da Irmandade da Cruz ergue-se como um reduto de disciplina e segredos, onde o desejo se confunde com o medo e cada olhar pode esconder uma promessa ou uma ameaça. O amor nasce nos momentos mais improváveis, a amizade sustenta a coragem das Eleitas e o ciúme revela-se tão letal como a lâmina mais afiada.

À medida que a Lua de Sangue ascende, presságios de morte percorrem os corredores, lembrando a todos que nenhum coração está a salvo e que a fronteira entre a lealdade e a perdição pode quebrar-se com um único passo em falso.

 


sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

LIVROS | LUA DO LOBO, IRMANDADE DA CRUZ, de MBARRETO CONDADO

 

Somos uma Irmandade — escolhidas pelo sangue, unidas pela vontade. Quando a noite desce com o seu manto de sombras, é na luz da Lua que encontramos proteção. De nós exige-se lealdade, altruísmo e coragem. A nossa força vive na união que nos sustém.

No Colégio da Irmandade da Cruz, as alunas crescem sob disciplina, mistério e silêncio. Mas estão destinadas a um futuro muito diferente de tudo o que poderiam esperar — um caminho traçado há gerações, selado por segredos antigos.

Chegará o momento de cumprir o nosso desígnio.

Quando o Lobo uivar, prepara-te — o ciclo terá começado. E nesse tempo sombrio, só nós te poderemos salvar.

 

 


quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

CONTOS | ENTRE VÍRGULAS E AFETOS, de MBARRETO CONDADO

Há amizades que nascem no acaso, outras na necessidade, e há aquelas que florescem na palavra. Vocês, meus amigos escritores — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — pertencem a esse último e raro tipo. Vieram primeiro como companheiros de letras, cúmplices de textos e conversas intermináveis, mas permaneceram — e permanecerão — como muito mais do que isso. Tornaram-se família: um irmão e irmãs.

Irmão e irmãs não apenas de caneta e papel, mas, sobretudo, de sentimentos. Vocês estão sempre presentes nos momentos melhores e piores da minha vida, encorajando-me com palavras sábias que tocam a alma, e que nunca me permitem desistir. Entendem o silêncio que precede uma ideia, a inquietação de um parágrafo inacabado, a alegria quase infantil de quando uma frase finalmente encontra o seu lugar. Sabem que escrever não é só técnica; é entrega, é fragilidade exposta, é coragem partilhada.

Estiveram sempre comigo — nos dias de inspiração, e nos de cansaço; nas páginas que brilhavam, e nas que tremiam. Souberam ouvir quando as palavras doíam, celebrar quando elas voavam, e, acima de tudo, acompanhar quando elas simplesmente não vinham.

A literatura aproximou-nos, mas foram a sensibilidade, o respeito, e o carinho que nos uniram de vez. Hoje, olho para cada um de vocês — Fernando, Vanessa, Mafalda, Anita e Cecília — e vejo não apenas escritores admiráveis, mas pessoas raras, cuja presença consola, inspira, e transforma.

Se a vida é feita de capítulos, vocês são aqueles que nunca deixaram de aparecer nas minhas páginas. Obrigada por serem porto, riso, reflexão, e abrigo. Obrigada por serem mais do que amigos: por serem verdadeiros irmão e irmãs de alma, e de sentimento.

Que continuemos a escrever juntos — histórias, dias, e afetos — por muito tempo, porque a nossa vida já é um parágrafo em comum, cheio de vírgulas, sem ponto final, sempre aberto a novas linhas, novas histórias, e novos momentos partilhados.

MBarreto Condado

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

CONTOS | VÉSPERA DE NATAL, de MBARRETO CONDADO

É véspera de Natal e, como manda a tradição, a casa está num estado tão caótico que até o Pai Natal teria vergonha de entrar sem avisar. O forno decidiu fazer barulhos suspeitos, o gato está a negociar secretamente a rendição total do presépio, a avó reclama que a televisão está “a encolher” (quando na verdade são os óculos que estão sujos), e alguém — sempre esse alguém — embrulhou presentes com tanta fita-cola que será mais fácil abrir uma lata de atum com os dentes.

A árvore de Natal está ligeiramente torta, mas decidimos ignorar porque, sinceramente, ninguém tem força emocional para discutir decoração nesta altura do campeonato. Lá fora, as luzes piscam com excesso de entusiasmo, parecendo dizer: “Boa sorte, humanos. Vão precisar.”

A família vai chegando: o primo que vem sempre “só um bocadinho” mas fica até às duas da manhã, a tia que traz um bolo-rei tão pesado que pode funcionar como arma medieval, e o tio que insiste em perguntar se “desta vez é que é o Euromilhões”. Spoiler: não é.

Entre discussões profundas sobre se o bacalhau está salgado demais, crianças a correr como se tivessem ingerido açúcar em estado puro e adultos que fingem saber onde está o saca-rolhas, há um momento mágico — aquele em que todos se calam, por dois segundos, para respirar. Ou para mastigar. É difícil distinguir.

E é aí que percebemos: no meio desta confusão digna de reality show, há carinho. Há risos, há histórias mal contadas, há abraços tortos e há um calor que nem o aquecedor avariado consegue estragar.

No fundo, o Natal é isto: sobrevivermos uns aos outros… e ainda querermos repetir para o ano.

Que esta véspera seja cheia de amor, gargalhadas e elasticidade — nos nervos e nas roupas.


MBarreto Condado

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

SUGESTÕES DE LEITURA | A VERDADEIRA HISTÓRIA DE HANSEL E GRETEL, de ADAM GIDWITZ | PLANETA


Não é a casa de chocolate que nos recebe à porta. É a floresta — escura, cerrada, inquietante. É para dentro dela que Adam Gidwitz conduz o leitor, de mãos dadas com Hansel e Gretel. Não as frágeis crianças que recordamos dos contos de infância, mas heróis improváveis, feitos de carne, medo e coragem.

O autor reveste a narrativa de ironia e de sombras, sem nunca abandonar a centelha do humor. Dirige-se a nós como quem partilha segredos junto à lareira, interrompe o fio da história para nos avisar do perigo ou para se certificar de que estamos prontos para o que aí vem. E o que aí vem raramente é dócil: há sangue, há abandono, há dor. Mas também existe a chama da esperança, teimosa, a arder contra todas as probabilidades.

Nesta versão, o conto não termina quando o forno se fecha sobre a bruxa. Hansel e Gretel percorrem outros caminhos, enfrentam novos monstros — alguns de carne, outros de alma — e, no fim, descobrem que crescer é talvez a mais assustadora de todas as aventuras.

Mais do que uma simples reescrita, Gidwitz devolve-nos o espírito original dos Grimm: histórias que não nasceram para adormecer crianças, mas para despertar consciências. A sua prosa, simultaneamente leve e cortante, reinventa os clássicos e lembra-nos que os contos de fadas não se fazem apenas de finais felizes, mas também de cicatrizes que nos tornam humanos.

Um Conto Sombrio dos Grimm é, assim, um livro para ler de olhos bem abertos, porque fechá-los seria perder a intensidade de uma viagem onde o medo e a beleza caminham lado a lado.

MBarreto Condado

 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

COLECTÂNEAS | POEMA-ME, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS

Era cedo e estava quente, como em tantas manhãs de Outono,

Quando o vi, ali, parado, parecendo-me triste, só, contrariado,

Sentia por dentro o mesmo que via quando o olhava, não sabia, contudo, que seria naquele momento, que me entregaria perdida num quente abandono,

Duas almas que se encontravam, dois corpos que se procuravam e se unem numa dança ansiosa, carenciados.

 

Não era amor nem paixão como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Quis, contudo, acreditar que poderia ser mais, talvez luxuria, talvez desejo ou somente aquela necessidade de te sentir,

De te sentir ali ao meu lado, o teu calor, o teu cheiro, o bater descompassado do teu coração,

Quando finalmente nos amámos, fomos um e esse sentimento ficaria para sempre mesmo quando tivesse que te ver partir.

Não era amor nem paixão, como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Todos os dias daquele mês que tivemos para nos amar,

Foram intemporais, mas ameaçavam agora ser curtos demais,

E sem saber como, já me sentia perdida, perdida em ti, no calor do teu abraço, quis bramar,

Mas não tive forças, sentia-me perdida nos meus sentimentos, em todos os meus ais.

Não era amor nem paixão, como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Quis pedir ao tempo que me desse alguns minutos mais, mas acima de tudo que parasse com a sua rápida tortura,

Que simplesmente parasse, ali era feliz, naqueles braços que me apertavam, com aquele estranho que eras tu e ali estavas,

Mas naqueles curtos dias de Outono, perdi-me no teu corpo, em todo o sexo que fizemos e em toda a sua candura,

Esqueci-me do mundo à minha volta, de tudo, de todos, e entreguei-me. Perdidos do tempo mas conscientes de todos os nossos sentidos. O que necessitava tu me davas.

Não era amor nem paixão, como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Mas como esse sentimento para ti não era nem amor nem paixão,

Era simples desejo, necessidade, simples tesão,

Fui-me tornando mais fraca e tu mais distante, exaustos, felizes, mas hesitantes. Chegara a tão adiada decisão,

O tempo não parou, e tu partiste de volta para os braços daquela que não te queria mas te tinha na tua escolhida prisão.

Não era amor nem paixão, como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Aqui fiquei novamente perdida, sem rumo, sem poder de decisão,

Queria, contudo, saber que para ti não fora somente um único momento para relembrar,

De desenfreado desejo, de loucura, de necessidade, de oportunidade, mas também de paixão,

Quis acreditar que talvez pudesses ter sentido mais, quem sabe até mesmo ficares aqui só para me adorar.

Não era amor nem paixão, como tantas vezes me afirmaste, era pura atração,

Mas nunca foi só pura atração, para ti era mais fácil pensares que sim,

Quisera, contudo, o destino, naqueles curtos dias de Outono,

Que algo dentro de ti mudasse e voltasses para mim num frenesim,

Os braços dela já não te chegavam, o teu coração era meu, comigo não sentias o abandono.

Ela era aquela que tinha tido o teu amor, a tua paixão, mas já não tinha o teu coração.

É amor, é paixão, ao contrário do que tantas vezes afirmaste, e a atração continua lá.

 MBarreto Condado

domingo, 21 de dezembro de 2025

FIGURAS HISTÓRICAS | VASCO DA GAMA - O NAVEGADOR IMPROVÁVEL, de MBARRETO CONDADO

Vasco da Gama foi, basicamente, o protagonista da primeira grande sitcom marítima.

Se existisse Netflix em 1497, ele teria uma série com risos de fundo, uma abertura cheia de gaivotas e música animada a tocar enquanto ele tentava parecer confiante em cima de uma caravela que rangia por todos os lados.

A verdade é que Vasco era um aventureiro… mas também um otimista perigoso.
Decidiu ir à Índia como quem decide ir “só ali ao café”:
sem GPS, sem meteorologia, sem Wi-Fi e com uma bússola que provavelmente dizia “voltar amanhã”.

Se fosse em 2026, Vasco teria um smartwatch a medir passos (o que num navio é giro, porque só dá 12 passos por dia), um grupo de WhatsApp chamado “Índia 1497: Vibes Fortes”, e uma playlist chamada “Mares agitadíssimos, mas com boa energia”.

A tripulação seguia-o com aquela confiança típica de quem não sabe bem no que se meteu.
Vasco observava as estrelas com cara de quem sabe o que faz, mas por dentro estava claramente a pensar:

"Se esta estrela não me ajudar, estou tramado."

As refeições eram outro espetáculo: pão duro, peixe duro, conversas duras.
Se houvesse micro-ondas a bordo, provavelmente teria sido considerado um milagre superior ao próprio feito da viagem.

E quando finalmente chegaram à Índia, depois de meses a olhar só para água e cordas, é fácil imaginar Vasco a sair do barco, esticar as costas, respirar fundo e dizer:
"Pronto, cheguei. Espero que tenham café. Forte."

No fundo, Vasco da Gama foi a prova viva de que: quando temos coragem, persistência e uma tripulação que não desiste, chega-se a qualquer lado — mesmo que se passe por três tempestades, duas calmarias e um motim emocional a meio.

E é por isso que, séculos depois, continuamos a falar dele.

MBarreto Condado

 

sábado, 20 de dezembro de 2025

COLECTÂNEAS | PREMONIÇÕES, de MBARRETO CONDADO | CHIADO BOOKS


Premonições de um passado sempre tão recente, de um presente tão devastador em toda a sua grandiosidade com todas as suas mais diversas transformações. Mas principalmente de um futuro promissor em toda a tua grandeza.

Hoje, sinto no fundo da alma uma tristeza tão profunda que me parece querer matar lentamente.

Quero manter para sempre, aquela ilusão que tenho desde o dia em que te tive nos meus braços pela primeira vez.

Quero sentir que tudo se vai compor, que tu vais ficar bem.

Os sonhos que tenho para ti, mantém-se vivos com a esperança de que o teu futuro tenha tudo aquilo que sempre te desejei. Tudo aquilo que não tive mas que julgo estar ao teu alcance.

Apesar de sentir que te afastas de mim e deste meu desejo, mantenho a sensação de que o conseguirás alcançar.

Quis sempre proteger-te de tudo aquilo que te pudesse fazer mal.

Quis manter-te perto do meu coração para que ninguém nem nada te fizessem sofrer. Mas agora sinto que não o consigo fazer por muito mais tempo, não que me faltem as forças, mas sim a lucidez. Necessito da tua ajuda. Necessito de ti.

Tenho aquela sensação que teima em me perseguir ultimamente. Sei que estás a sofrer uma grande transformação e que te sentes forte o suficiente para a passares sozinho. Mas por favor não me tentes afastar.

Não quero que o faças.

Não permitirei que o faças.

Quero conseguir gritar bem alto para que pares pois quebras-me a alma. Dizer que sem ti morro, é dizer pouco comparado com aquilo que sinto na realidade.

As palavras nunca serão suficientes para expressar os meus verdadeiros sentimentos.

Queria poder ler-te os pensamentos, saber que não me excluis deles. Mas não consigo.

Quando foi que deixaste de conseguir falar comigo?

Sinto-me afogar neste desespero em que me encontro.

Será tão mau desejar-me presente na tua vida?

Se eu conseguisse prever o que lá vem talvez não sofresse tanto. Mas não consigo.

Hoje, sinto-me abatida.

Dou por mim a pensar onde terei errado.

O que deveria ter feito diferente?

Deveria ter mudado algo?

Mas aquele malfadado pressentimento de que é agora que tudo pode acontecer, teima em não me abandonar.

Chegou o teu momento decisivo.

Este é o tempo da grande mudança.

Para o bem e o mal.

Estarei aqui. Ao teu lado. Sempre!

A segurar-te para que não caias. E, se por acaso caíres, serão os meus braços que te erguerão uma vez mais.

Mesmo que te pareça distante, sabe que eu estou ai. Nesse lugar que tomei como meu tão perto de ti.

Basta estenderes-me a tua mão que eu tomo-a.

Desejo ardentemente ser novamente aquela em quem podes confiar.

Aquela a quem deves confidenciar todas as tuas dúvidas.

Se por vezes te parecer irrascível, até pode ser que tenhas razão mas nunca te esqueças que sou sempre, eu.

Tudo o que faço e sempre farei é puro amor.

Nada peço em troca, senão a tua felicidade.

Continuo banhada naquelas premonições que me dizem que tudo se vai compor e que juntos, continuaremos esta caminhada que nos trouxe juntos até aqui.

Premonição de um futuro risonho.

Premonição de uma vida completa e feliz.

Premonição de continuares a ser aquela Homem forte com coração de menino, cabeça ao vento, tão perdido na sua timidez.

Mas acima de tudo um Homem.

Esta continua a ser a minha maior premonição.

Saber-te feliz.

MBarreto Condado


sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

LIVROS | COLAR DE BRISINGAMEN, PROFECIA DO SANGUE, de MBARRETO CONDADO

Sei o que me espera, tenho noção da enorme responsabilidade, de todas as vidas que dependem unicamente do meu sucesso.

Nos meus momentos mais difíceis, quando as forças ameaçam abandonar-me sei que quem me ama virá em meu auxílio, atravessando o véu que separa os vivos dos mortos para me reconfortar e que o vazio deixado, com o tempo será atenuado pelo suave murmúrio do vento.

Se for chegada a minha hora, partirei a lutar com todas as forças que a Deusa me deu e com a certeza de que deixarei este mundo livre de Sombras.

Gráim thú, a Rhenan, agus níos mó ná riamh ba mhaith liom maireachtáil.

Maria MacCumhaill

 

Amo-te Rhenan e mais do que nunca quero viver

 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

LIVROS | FIVELA DE AKER, PROFECIA DO SANGUE, de MBARRETO CONDADO

Poderosos guerreiros irlandeses, há muito tempo renunciaram ao amor mas agora desafiam a sua própria existência para o reclamar. Num mundo de magia intemporal onde a imortalidade é tida como uma certeza, têm em Maria a ajuda de que necessitam para alcançar a sua tão almejada felicidade. A força dos MacCumhaill depende da sua união, do amor e confiança que sentem uns pelos outros. Será no meio da incerteza que o amor nasce.

Os escolhidos dos quais fala a Profecia, começam a unir-se. Agora já não é possível voltar atrás. De todos os cantos chegam reforços, porque é o sangue que os une.

Sente-se uma mudança no ar. Um ser antigo, que se libertou de Annwan com promessas de vingança que volta para concretizar o que começara muitos anos antes.

 

“O Sangue que nos une, nos atrai e nos dá força

é o princípio e o fim da nossa existência.”

Fionn MacCumhaill

 

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

LIVROS | YGGDRASIL, PROFECIA DO SANGUE, de MBARRETO CONDADO

E se a vida como a conheces pudesse ser muito mais?

Desde o início do tempo dos clãs, que os MacCumhaill se mantinham unidos. Família de poderosas mulheres e orgulhosos guerreiros. Tinha-lhes sido exigido um único sacrifício em troca da sua imortalidade, manter o equilíbrio entre os três mundos. E esse equilíbrio tinha sido quebrado. As portas estavam abertas facilitando a passagem de todos os seres sobrenaturais.

Seria Maria, uma jovem estudante portuguesa acabada de chegar a Dublin a ajuda poderosa pela qual aguardavam há tanto tempo? Conseguiria ela aceitar tudo o que lhe era pedido? Acreditar neles e lutar ao seu lado? Dividida entre o seu dever e o amor que sente pelo herdeiro do clã irá descobrir que deve seguir o seu coração, mas esse também já não é seu. Tinha-o entregue àquele homem ainda antes de lho dizer.

Este era o início de uma nova Era…da Profecia do Sangue.

 

 

terça-feira, 16 de dezembro de 2025

SUGESTÕES DE LEITURA | ORDEM TRIPOLAR, de SÓNIA SÉNICA | PLANETA

Em “Ordem Tripolar – O Mundo dos Grandes Poderes”, Sónia Sénica convida-nos a percorrer os labirintos da geopolítica contemporânea, onde cada decisão, cada movimento, ecoa pelo mundo como uma pedra lançada num lago. A autora, com olhar atento e ponderado, debruça-se sobre o que muitos sentem, mas poucos analisam: a sensação de declínio do Ocidente e o surgimento de forças que reclamam o seu lugar à mesa do poder global.

A invasão russa da Ucrânia não surge apenas como um ato militar; é, nas palavras de Sénica, o espelho de um Ocidente vacilante e de uma Rússia que, sob o comando de Vladimir Putin, assume-se previsível na sua imprevisibilidade. Cada passo de Moscovo, cada gesto calculado, parece responder a um roteiro escrito há muito tempo: restaurar influência, desafiar normas internacionais e afirmar-se num mundo que julga estar a perder o controlo.

É neste contexto que emerge o chamado “eixo da conveniência” sino-russo, uma parceria pragmática, tecida na sombra do Ocidente, movida por interesses partilhados e pelo desejo de autonomia. Sénica descreve-o com precisão: não é amizade, mas um arranjo estratégico, onde a cooperação se equilibra com a cautela, e a ambição de um alimenta a força do outro.

A China de Xi Jinping, por seu turno, ergue-se como gigante meticuloso. Não se trata apenas de poder económico, mas de uma arte de persuasão e de assertividade que redefine fronteiras e influência. Sénica leva-nos a compreender a lógica desta ascensão, a visão de um país que não se contenta com os limites impostos pelo passado e ambiciona escrever o seu próprio destino no mapa do mundo.

Entre estas potências em ascensão, a tríade multilateral – ONU, NATO e UE – surge como contraponto, tentando manter o equilíbrio num palco cada vez mais instável. Sénica não evita apontar as suas fragilidades, a dificuldade em responder com agilidade a mudanças rápidas, e, ainda assim, reconhece os esforços por manter relevância num mundo multipolar.

Por fim, a autora volta o olhar para o seu próprio quintal: os Estados Unidos. A perspetiva de uma administração Trump 2.0 é tratada como uma sombra de incerteza, um lembrete de que, mesmo a potência que muitos consideram fulcral, não está imune às turbulências internas e às contradições do seu próprio sistema. A instabilidade americana reflete-se no panorama global, recordando que o poder não é apenas feito de recursos, mas também de escolhas e de lideranças.

No seu todo, “Ordem Tripolar” não é apenas um livro de geopolítica; é uma reflexão sobre o poder, sobre a ambição e sobre os caminhos incertos de um mundo em transformação. Sónia Sénica oferece-nos uma narrativa que desafia, que provoca pensamento e, sobretudo, que nos recorda que compreender o mundo é, também, compreender as complexidades e nuances de cada ator no tabuleiro internacional.

Um convite a olhar para além das manchetes, a captar os movimentos subtis que definem o rumo do mundo e a reconhecer que, neste intrincado jogo de poder, nada é estático e tudo está interligado. Por isso, recomendo vivamente a leitura deste livro: uma obra atual e esclarecedora, que nos permite compreender melhor o mundo que nos rodeia, as suas tensões, alianças e dinâmicas silenciosas que moldam o futuro das relações internacionais.

 

segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

CONTOS | O ÚLTIMO REFÚGIO, de MBARRETO CONDADO

 

Naquele edifício abandonado, onde a madeira apodrecida rangia ao vento e as paredes gastas guardavam silenciosamente memórias de outros tempos, uma pomba repousava sobre um amontoado de telhas partidas. Era ali que, em dias outrora mais leves, encontrara abrigo. Um ninho improvisado entre ruínas, um pequeno gesto de vida num lugar há muito entregue ao abandono.

Agora, porém, a ave permanecia imóvel, encolhida contra o frio e contra o destino. O que fora o seu refúgio começava a transformar-se no seu derradeiro leito. As telhas que antes protegiam tornavam-se, lentamente, o seu caixão de barro e silêncio. A luz que atravessava as frestas iluminava-lhe as penas baças, como um último afago, enquanto o mundo lá fora continuava indiferente.

Ali, no meio do que restava de uma casa e de uma vida, a pomba rendia-se. Não com revolta, mas com a serenidade triste de quem sabe que tudo tem um fim — até o mais persistente dos voadores. E assim, o ninho que a acolheu tornou-se o lugar onde a vida repousa pela última vez, numa despedida tão discreta quanto a própria existência da ave.

MBarreto Condado

 

domingo, 14 de dezembro de 2025

FIGURAS HISTÓRICAS | LEÓNIDAS, de MBARRETO CONDADO

Leónidas aterrou no século XXI com a mesma pose épica de sempre — peito nu, olhar de trovão e pronto a gritar “ISTO É ESPARTA!” a qualquer coisa que respirasse, incluindo um aspirador robot. 

Determinado a reunir os seus 300, convocou-os… mas só apareceram 12: uns estavam em teletrabalho, outros a fazer crossfit, e o resto preso no trânsito com o Waze avariado. Sem se dar por vencido, bradou o seu grito de guerra na repartição das Finanças. Recebeu uma senha C289, um panfleto sobre o IRS e um aviso para falar mais baixo. 

Tentou conquistar o supermercado, mas escorregou num pacote de iogurtes e foi travado por uma pensionista armada com um saco de batatas. Criou uma conta no Instagram para espalhar a sua glória, mas ficou preso num loop infinito de tutoriais de Reels e filtros com orelhas de cão. Ao pôr-do-sol, exausto e confuso, sussurrou: “No meu tempo lutávamos contra exércitos… agora é contra o Wi-Fi, o colesterol e o multibanco” Conclusão? O século XXI é mais cruel que Xerxes — e muito menos épico.

MBarreto Condado

sábado, 13 de dezembro de 2025

BEM-VINDOS AO ENTRE LINHAS

Bem-vindos ao Entre Linhas

O Entre Linhas nasce da vontade de partilhar histórias, inspirações e caminhos criativos. É um espaço criado por MBarreto Condado, autora apaixonada pela escrita e pelo poder transformador das palavras.

Neste blogue, encontrará contos originais, frases motivacionais para iluminar o quotidiano, sugestões de leitura pensadas para leitores curiosos e ávidos, bem como entrevistas a outros escritores, que partilham connosco as suas vozes, processos e visões. Aqui há também lugar para ideias e exercícios de escrita criativa, pensados para quem deseja explorar novas formas de criar e dar vida às suas narrativas.

No Entre Linhas, cada texto é um convite a abrandar, pensar e sentir. A literatura cruza-se com a inspiração, e a criatividade encontra sempre espaço para ganhar forma.

Seja bem-vindo a este universo de palavras — onde cada linha conta uma história e cada história nos leva um pouco mais longe.