quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

CONTOS | OPERAÇÃO "ADEUS 2025", de MBARRETO CONDADO

Chegámos ao último dia do ano, esse momento glorioso em que todos fingimos ter a vida organizada, quando na verdade estamos há três dias a viver de restos do frigorífico e de esperança. A mesa está pronta, a sala arrumada (ou empurrámos tudo para dentro de um quarto e fechámos a porta, o que também conta) e o champanhe está no frigorífico desde Outubro “não vá esgotar”.

O ambiente é festivo: o glitter aparece em sítios misteriosos, a música está demasiado alta e há sempre aquele parente que insiste em testar a acústica da casa com gargalhadas que se ouvem no vizinho do 3.º andar. A tia aparece com um colar de luzes a piscar, o primo chega com um casaco que parece uma bola de espelhos, e o amigo de sempre entra a anunciar que este ano não vai exagerar. Duas horas depois, já está a fazer discursos emocionados ao sofá.

Começam as grandes reflexões do ano:

— “Este ano é que vou correr todas as manhãs!”

— “Sim, claro.”

— “E vou comer melhor!”

— “Fantástico, começa em Março.”

— “E vou ser uma nova pessoa!”

— “Boa sorte, guarda o recibo para trocas.”

Depois vem o drama das 12 passas. Mastigamos como quem tenta sobreviver a um desafio de resistência enquanto pedimos desejos que já pedimos nos últimos três anos. E quando o relógio está prestes a bater as doze badaladas, há sempre alguém que grita “AGORA!” cinco segundos antes, só para sabotar o sincronismo universal.

Mas no meio da confusão — dos brindes tortos, das fotografias desfocadas e dos abraços que quase nos partem as costas — há um instante doce. Um instante em que percebemos que, apesar de tudo, fizemos o melhor que conseguimos. E que o que correu mal deu-nos histórias, e o que correu bem deu-nos força.

Por isso, aqui vai o desejo oficial e certificado:

Que 2026 nos traga saúde, alegria, dinheiro suficiente para não termos de fugir do supermercado, coragem para nos rirmos de nós próprios e magia suficiente para nos surpreender quando menos esperamos.

Que venha um ano leve, luminoso e cheio de momentos tão bons que até o telemóvel diz “memória cheia”.

Feliz Ano Novo! Que 2026 seja épico — ou pelo menos suficientemente divertido para nos esquecermos dos dramas.

MBarreto Condado

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