O vento uivava assustadoramente, as
portadas da sala batiam com fúria contra o batente, os ramos do velho pinheiro
manso raspavam irritantemente nas janelas da sala obrigando-a a levantar-se.
Afastou contrariada os
lençóis, calçou os chinelos enrolando-se na manta da cama, tremia de frio a
casa estava gelada parecia que o vento encontrara caminho através das frestas
da porta e da chaminé determinado a ocupar um lugar que não lhe pertencia, olhou
para a cama quente que abandonava caminhando às escuras pelo corredor, tinham
passado somente dois meses desde que se mudara para a velha casa perdida no meio
do monte.
Abriu a janela da sala
puxando as portadas para as trancar quando os olhos se focaram numa fraca luz ao
fundo do vale. Deixou-se ficar parada com os olhos fixos até que uma forte
rajada de vento a retirou daquele torpor obrigando-a a fechar a janela. Correu
para o quarto atirando-se para a cama ainda embrulhada na manta puxou as
cobertas por cima da cabeça, o sono tomou-a, já não conseguia ouvir os ramos do
velho pinheiro a roçar nas portadas, nem o uivo do vento que aumentava, só o
silêncio.
A luz movimentando-se em
círculos parou.
Baixaram os capuzes olhando
na direção da velha quinta sabiam que tinham sido vistos, voltaram os olhos
para a lua começando a caminhar na direcção da casa detendo-se do lado de fora
do frondoso portão observando cuidadosamente o local, a um sinal começaram a
dispersar-se colocando-se à volta do terreno murado desenhando estranhos símbolos
enquanto entoavam uma imperceptível ladainha.
Ouviam os uivos ao longe
sabiam que vinham por eles, aproximavam-se rapidamente, não queriam ali estar
quando chegassem. Não conseguiram acabar de desenhar os símbolos começando a
dispersar-se apagaram as lanternas desaparecendo silenciosamente na escuridão.
O chão trepidava com o
barulho de patas a bater no chão molhado.
Os animais dividiram-se enquanto
farejavam o local onde antes tinham estado os vultos negros certificando-se de
que nenhum ficara para trás. O Alfa entrava
sozinho no jardim pelo único local que lhe era permitido, o mesmo que ainda não
fora marcado, rondou a casa parando debaixo de uma janela cheirando o ar, esticou
a longa mão com garras pousando-a na portada de madeira. Sabia que tinham que
agir rapidamente, estava quase a amanhecer, não podia ficar ali mais tempo, regressaria
nessa noite.
Acordou irritada, por duas
vezes despertara com a estranha sensação de que alguém caminhava no jardim, que
escutara vozes e cães, muitos cães, a correrem e a uivar.
Sentou-se no alpendre decidida
a não fazer nada naquele dia, iria descontrair com um bom livro e um chá. Não
sabia que horas eram quando ouviu vozes ao portão, levantou-se contrariada contornando
a casa para se deparar com três idosas no lado de fora, vestidas de negro com
lenços na cabeça, a tez demasiado clara para serem gentes nascidas e criadas no
campo.
—
Bom dia!
Olhavam-na com olhos negros,
frios, algo na sua fisionomia perturbava-a.
—
Bom dia! — cumprimentou novamente não conseguia explicar,
mas sentia medo.
—
Convide-nos a entrar,
temos sede. — uma
das mulheres falou aumentando os seus receios, sabia que não era o portão da
quinta que a protegeria se quisessem entrar mas esperava que não o fizessem.
Levantara-se um forte
vento, reparou que as mulheres conservavam as mãos dentro dos bolsos, os lenços
colocados tapando-lhes a cara, tinham um aspecto tão assustador que naquele
momento estava satisfeita por manter o portão trancado. Começou a ouvi-las
falavam ao mesmo tempo, porém ao olhar reparou que não mexiam os lábios, escutava-as
dentro da sua cabeça. Começou a suar, sentiu a pele arrepiar-se, quando as viu
sorrirem-lhe com ódio, maldade, os seus olhos eram negros como uma noite sem
luar, os caninos tão afiados que uma delas sangrava do lábio. Temia pela sua
vida.
As vozes continuavam a
sobrepor-se dentro da sua cabeça: “és nossa…a tua alma pertence-lhe…vou
secar-te a vida…sentir o sabor do teu sangue…derradeiramente entregar-te a Ele…”
Uma mão ossuda avançava como
se não fizesse parte daquele corpo, os dedos finos entrançando-se no ferrolho
sacudindo-o, torcendo-o, as dobradiças cediam. Queria fugir, mas as pernas não
lhe obedeciam, um frio intenso apoderara-se dela, sentia-se estranhamente sonolenta,
ainda conseguiu escutar um carro travar, vozes, gritos, mas já não viu nada.
Acordou com uma valente
dor de cabeça, estava deitada na cama e já não sentia aquele estranho frio que
lhe toldara os movimentos, abriu os olhos a custo lembrava-se vivamente do que
acontecera, felizmente tudo não passara de um horrível pesadelo.
Abriu as janelas, o sol
já se começava a pôr custava-lhe acreditar que dormira todo o dia. Tomou um
banho rápido vestindo uma roupa quente precisava de caminhar um pouco para
desanuviar a cabeça.
O percurso que apreciava
fazer pelo monte, sempre rodeada por árvores, animais e ar puro era tudo do que
necessitava naquele momento, mas tinha que se despachar se ainda queria
regressar com luz, felizmente os seus pés já conheciam o caminho. Atravessou campos
de cultivo, vinhas, parando antes de atravessar o cerrado pinhal algo no seu
subconsciente lhe dizia que devia regressar veio-lhe à memória que fora ali que
vira a estranha luz na noite anterior. Voltou-se deparando-se com vários vultos
negros espalhados pelo monte tapando-lhe a passagem era assustador pensar que não
os ouvira aproximarem-se, agora caminhavam na sua direcção de mãos dadas e a
liderar o grupo as mesmas mulheres com quem sonhara, sorriam-lhe mostrando os
afiados caninos, os olhos negros brilhando de expectativa. Começava a acreditar
que não sonhara. Voltar para trás e passar por aquelas pessoas deixara de ser
uma opção, voltou-lhes as costas começando a caminhar na direcção do pinhal
preferia enfrentar os seus medos atravessando aquele local do que ficar à mercê
dos estranhos que a seguiam, acelerou o passo evitando correr tinha medo que se
o fizesse a perseguissem e sabia não ter nem a resistência nem a velocidade
necessária para conseguir correr até casa sem que a apanhassem.
Penetrou na falsa protecção
daquelas copas, parando momentaneamente para olhar para trás, às três mulheres tinham-se
juntado todos aqueles que vira espalhados pelo monte, envergando a mesma
sinistra indumentária, notou com curiosidade que tinham parado de a seguir tendo
começado a gritar na sua direcção, num coro de lamentos e ódio. Estava na hora
de sair dali rapidamente e regressar ao amparo da sua casa, voltou-se de
repente chocando com um enorme homem que se encontrava parado atrás de si,
gritou. À sua volta conseguia ver uma barreira de corpos tapando a saída, olhos
amarelos brilhavam no escuro, o estranho agarrou-a pelo braço puxando-a de
encontro a si enquanto os outros que se encontravam detrás dele passavam para a
sua frente fazendo uma nova barreira de corpos que os separavam de quem a
seguia, os olhos amarelos que vira brilhar no escuro aproximaram-se,
colocando-se ao lado daqueles homens e mulheres. Poda jurar que eram lobos.
—
Não tenhas medo,
nós protegemos-te.
Queria falar, mas as
palavras não saiam. Era evidente que não ia confiar em estranhos além de que
gostava pouco que a agarrassem daquela maneira.
—
Vem comigo,
levo-te para casa. — o
estranho pareceu perceber a sua ansiedade largando-a, no entanto continuava com
a mão esticada para que a tomasse.
Perante o absurdo do que
se passava decidiu seguir o seu instinto agarrando na mão que lhe esticava com
firmeza. O estranho começou a puxá-la atrás dele até saírem da escuridão do
pinhal, não sabia quanto tempo ali estivera não lhe parecera muito, mas já
anoitecera. Reparou que não seguiam sozinhos, com eles caminhava um grupo de
homens e mulheres perscrutando atentamente no escuro, para trás ficava o grupo
compacto de homens, mulheres e lobos formando uma barreira de corpos impedindo
que os vultos negros passassem e os seguissem.
Aproximavam-se da estrada
principal quando arranjou coragem para falar.
—
Vamos ter que
abrandar as minhas pernas já não me obedecem.
—
Queres que te
leve?
—
Ao colo? — aquela conversa parecia cada vez mais
surreal — É
evidente que não. Mas tenho mesmo que parar uns minutos.
—
Não podemos. — sem lhe dar tempo para responder
pegou-lhe ao colo.
Não resistiu, afinal aquele
homem parecia ter dez vezes mais força do que ela.
—
Sabes que a casa
onde vives está marcada? — falava
sem a olhar com os olhos sempre fixos no caminho em frente.
—
Marcada? Não
percebo.
—
Os sugadores de
almas escolheram-te.
—
O que está a
dizer? Devia saber quem são?
—
Os seguidores de Oinómed,
o demónio da encruzilhada. Os sugadores de almas bebem o sangue de quem marcam,
queimam os seus corpos e finalmente entregam as pobres almas em troca da vida
eterna.
Não queria acreditar no
que ouvia, ainda devia estar a dormir.
—
Aqueles que me
seguem são as pessoas de que fala?
—
Os sugadores não
são pessoas, são mortos vivos.
—
Como me
escolheram?
—
Deves ter visto a
luz deles durante a noite enquanto procuravam uma nova vitima.
Assentiu com a cabeça
então tinham sido eles a luz que vira.
—
Nesse caso quem
são vocês?
—
Os únicos que te
podem proteger neste momento.
—
Conseguem tirar-me
a marca?
—
Não!
Olhou para baixo
reparando nuns estranhos sinais no chão que nunca vira de todas as vezes que
ali passara.
—
O que é isto? — apontava para o chão.
—
Cruzes, cada uma
representa uma alma que se salvou, representa um de nós.
—
Disse que me podem
proteger, como?
—
Após seres marcada
só te salvas se te tornares uma de nós.
Estava definitivamente a viver
numa realidade paralela ou pior continuava a dormir, se assim fosse já só queria
acordar daquele pesadelo. Fechou os olhos com força voltando a abri-los para
constatar que ainda ali estava e que tudo aquilo era real.
—
E quem são vocês?
—
Criaturas da
noite.
—
Vampiros? — tremeu ao pensar que naquele momento
escapara de uns sugadores para cair nos braços de outros.
O estranho soltou uma
gargalha. Ainda bem que conseguia achar graça ao pior dia da sua vida.
—
Não. Nós vivemos.
Aproximavam-se da estrada.
Pararam, olhavam para ela e posteriormente para a encruzilhada dos quatro
caminhos, virou o olhar no momento de ver aparecer no meio do cruzamento uma
bola de fogo e dela sair um enorme vulto.
Olhou para o estranho que
a transportava agarrando-se a ele com força.
—
Não quero morrer.
—
Não queremos que
morras nem deixaremos que tal aconteça se for essa a tua decisão.
—
O que devo fazer?
—
Juntar-te a nós. Viverás
o dobro dos anos protegendo todos os que necessitem da tua ajuda contra as trevas,
mas para que isso aconteça necessito que me confirmes que é esse realmente o
teu desejo.
Olhou na direcção do
vulto negro, também este parecia aguardar a sua resposta.
—
Sim! Quero
juntar-me a vocês.
Os olhos daquele estranho
e de todos que ali se encontravam ficaram amarelos, este afastou-lhe
delicadamente a camisola que lhe cobria o ombro esquerdo mordendo-a, Oinómed desaparecia numa chama intensa, as
marcas desenhadas nos muros de sua casa desapareciam, os homens, mulheres e
lobos que tinham ficado para trás juntavam-se-lhes e perante o seu olhar
atónito os lobos transformavam-se perante os seus olhos em fortes homens e
mulheres a quem Oinómed não conseguira roubar a alma.
Enquanto debaixo dos seus
pés no local onde fora mordida aparecia uma nova cruz, a sua, uma confirmação
de mais uma alma que escapara às trevas,
—
Bem-vinda. — o estranho sorria-lhe pousando-a
gentilmente.
Quando o voltou a encarar
também os seus olhos brilhavam amarelos como a Lua que despontava no céu
naquela noite.
MBarreto Condado